Arquivos diários:novembro 16, 2010

Ainda…

Ainda…

Foi um rompimento na impossibilidade. As fumaças de um cigarro dançavam no negrume daquela noite, piedosa apenas pela presença da Lua Plena. 

Ele olhava para esse tudo dela que podia avistar e que o vento fazia esvair-se em segundos. Caminhava. Havia um muro, uma porta e uma grade afirmando o comedimento que nem se sabia mais. Brotaram de suas penas, linhas exaustas de um Amor pedindo abrigo, querendo respirar. Ainda.

Faltou luz, mas já era dia. Disseram. Vagou até fazer Sol, mas se queria Lua. Luta-se. Cansados ambos, ofegantes ambos e ambos a não acreditarem nas causas que defendiam. Carne e feridas à mostra contra tudo do Amor que ao outro se dedicava. Imploraram trégua, já que os vinhos mais baratos lhes foram arrancados. As almas foram laceradas com todo o arsenal que a ausência oferece aos combatentes feitos de fogo e dor, insistindo no “não” brandido a braço de ferro, cortante e penetrante.

Depois de tudo acabado, vencedores de si mesmos, de joelhos, receberam o prêmio final motivo de tão renhido duelo: a certeza que podiam ir-se e a profunda tristeza que cabe àqueles que conhecem o alto preço de suas conquistas.

Tempos vão e são, e chega para um deles a vista vagarosa de um casco sujo sob velas ensorbecentes, antes amarrado ao cais do Amar. Piedade das águas que correm sob inteiro efeito de despedidas, levando para muito, mas muito longe dos encantos, aquela vontade de Primavera que, em delírios, um dia ousaram sonhar…

Laurita Dias

Marinheiro Triste

Marinheiro Triste

Por Jaya Magalhães

“Marinheiro triste
Que voltas para bordo
Que pensamentos são
Esses que te ocupam?”

(Marinheiro Triste – Manuel Bandeira)

 

E nela moram interrogações. Os assombros mesmos, de anos atrás. Pela janela escancarada, quem passa vê. A moça de face apoiada em mãos, e aquele olhar que não enxerga. Foi ele quem partiu, outra vez. E o litro de aguardente que ficou na mesa ao lado bem serviam para lembrá-la de como o amor do que se foi a esquentava.
Marinheiro, marinheiro! Envolto em tuas águas, sente-se no comando do mundo, bem sei. Carrega uma lista de corações partidos a cada canto por onde passa. A cada porto, escreve um desamor. Os olhos que te retratam, verdes, jabuticabas, azuis, castanhos, de mel, do-Pará. Cada um, uma festa que já foi. E depois as águas. E nada. Solidão para os teus olhos tristes, marinheiro. Coração nenhum ao lado teu. Uma pena. Mesmo? Já não sei mais.
Observo-te em tom de pesquisa, há muito. Lembro os dias onde o mundo ainda era pouco. De quando você se fez homem do mar. Teu lenço, chapéu, farda, botavam doidas as mocinhas todas. Soubesse aproveitar os bons frutos, hoje teria uma árvore bem cuidada. Mas quem quer saber de árvore quando nunca se ancora? Você aproveita das estações o que de melhor elas te oferecem.

Teu navio, que nome ele tem, marinheiro? Nome de amor, sofreguidão, azedume? Pelo casco sujo, acredito em desimportância. Se houve batismo, um dia, já não se sabe das memórias. É a água que leva e a onda que traz de volta. Por isso você retorna. Bebida e charuto. Posa em desafeto, e depois parte em tropeços. Deixa aqui um verso, por hoje. Poema para a donzela. Perfume para as prostitutas dos teus portos de escala.

Espia São Jorge, enquanto a lua se levanta. Já notou do teu navio, quando os ventos te levam os contos daqui, como é bonito o mar grávido em luar? Sentiu-se filho? Bem sei que você se torna céu azul, marujo. A moça carrega pintura tua no altar. Pobre da moça.

Esse batom barato borrando teus lábios, de que passagem grudou? Tão encarnado quanto as demais paixões profanas. Sei que hoje não é mais dado a confetes. A tristeza bem desenhada nos teus olhos escuros chega a ser divina em sua verdade. É a tristeza envelopada em si. Carta escrita por você, marinheiro. Te alcançaria em qualquer mar.

Marujo ia no olho verde da moça, em doce navegar. Moça no coração do mar. Ele é filho. Saltariam juntos apenas quando a garrafa de amor escrito fosse aberta. Descoberta. Tinha dos dois, nalgum lugar. Vidro frágil. Era a promessa. O desembarcar em cada porto era o viver sendo entregue. Missão. A moça era do marinheiro. Ele, dela. E sempre foi assim. Necessário transverberar?

Marinheiro viu coração em garrafa. Infinitude nadava. Afogou-se. Muito (a)mar.

Foi embora todo aquele há de ser. Hoje, água e sal moram nos olhos da moça, junto com as interrogações. A cada lua, face apoiada em mãos, e o não enxergar. Quem passa vê, pela janela escancarada.

Amar. Há mar. Amor perdido. Gaivota. Ela virou ilha. Ele, céu – seu.

http://liricass.blogspot.com/2008/09/marinheiro-triste.html