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80 anos de Tom Zé

Oitenta é um número graúdo para contar os anos. E é um grande privilégio estar no mundo no mesmo tempo que Tom Zé. Desejo muita fartura de Vida para esse Baiano de Irará que consegue ser vanguarda em qualquer tempo. Deixo aqui alguns registros de quando ele veio em João Pessoa, em agosto último, e topou uma prosa massa com um povo que desalinha do estabelecido. Foi mais um passo pro meu projeto de doutorado. Uma grande lisonja tê-lo numa roda de conversa sobre o conhecimento narrativo que se perpetua pela cultura oral, em contraponto ao cientificismo, ao saber cartesiano e às padronizações que tanto excluem. Vida farta a esse querido, genial e generoso Tom Zé!

Hoje. 12 de setembro de 2016. Mais um daqueles sinais do Universo que me chegam no momento exato, pra fazer entender que há conexão e proteção. Que palavra silenciada encontra jeito de dizer. E diz. Pelos oceanos virtuais me deparo com esse texto que diz de deslugares para corações selvagens. Respiro e agradeço. Tem dia que dura um ano. E que venham os novos amanheceres…

Belchior; Cantor

Musico Belchior em 1977. FOTO DIVULGAÇÃO.

– E aquele poeta, moreno e latino, que, em versos de sangue, a vida e o amor escreveu… Onde é que ele anda?

– Ninguém sabe dele…
– Fez uma viagem ?
– Não, desapareceu.

Belchior parece conhecer a fúria da vida como pessoa sensível que é ao reconhecer que os aspectos da vida da forma que é (im)posta ainda não possui oxigênio, espaço e afabilidade o bastante para adequar-se a sua rebeldia. Poucas pessoas conseguem enxergar, compreender e deixar escorrer pelos poros e pelas tintas das canetas as modulações implacáveis da vida. É preciso saber sentir, saber chorar, é preciso ser atingido por dores que parecem insuportáveis, buscar a poesia inalcançável da realidade viva e não encontrá-la nunca. É preciso ter a consciência lúcida de que a vida ignora a fragilidade dos corações , e consequentemente os atropela de diferentes formas – todas frívolas -.Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver. Não adianta apelar para Deus ou pedir a vida para que pise devagar. Pouco importa se o coração é como vidro ou feito beijo de novela, e o ”pouco importa” é o que direciona os descontentamentos dessa sensibilidade que se confronta o tempo inteiro com um mundo colérico e apático. Viver é ser atropelado diversas vezes, Belchior.

O que fazer quando não se cabe na própria vida, no próprio corpo, na própria alma ou na própria canção? Onde estão as repostas, as vias, as saídas quando não há evasões razoáveis que respeitem os desejos e as velocidades? Talvez na ausência. Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja. Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo tenho pressa de viver. Belchior deseja o desejo de forma pura, nua. É subversivo ao afirmar não querer o que a cabeça pensa e que anda pelo caminho errado pela simples alegria de ser. Como viver no mundo sem a racionalidade de se guiar pelo que a cabeça pensa? Não é viável, Belchior. Não sem uma angústia violenta. Mas Belchior quer o que a alma deseja ainda que não encontre a alma nas coisas.

Não há a profusão de sensações tencionadas no cotidiano, e essa é uma condição de desolação em que Belchior vê o amor esvaziando-se e canta a diminuição do sentimento que mais importa: o amor. E no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico Diminui o meu amor. Como é avistar o que mais importa em uma vida ruindo-se e indo embora pela veemência morta do cotidiano? Talvez fugindo dele e aceitar a perversa – e imutável – juventude do coração que compreende apenas um universo restrito e vulnerável em demasia. Escreva a frase que só entende o que é cruel e o que é paixão em uma folha de papel e reflita sobre a aflição de possuir um coração que só capta essas emoções tão divinas e tão quebradiças. Não é fácil conceber o infinito de Belchior.

Belchior cansado do peso da cabeça, tem medo da hora da verdade que ele sabe – dentro de si e da canção – que vai chegar, fazendo-o andar de mãos dadas com a solidão, que talvez seja a sua grande – e paradoxal busca – depois do amor. Belchior não estava cabendo no mapa do Brasil. Ele tem medo de Minas Gerais, de Vitória, de Goiás, de São Paulo, da Bahia e de todos os estados do país. Todos esses lugares parecem não sustentar um coração selvagem onde há dor e silêncio. Belchior quer o novo momento, quer jogar tudo fora e fugir. Quer pegar um avião ou um navio para um lugar onde um jovem como ele pode amar e ser feliz. E adivinha? Ele procurou passagem e não havia linha praquele país.

Belchior parece ser feito de buscas intermináveis. Faz da existência um lugar grandioso demais para deixar-se um deserto árido. Ainda não há superfície que abrigue o deslugar, a pulsação e a intensidade de um homem como Belchior. Perder-se no mundo foi o único jeito de se encontrar. Ainda que ele continue perdido.

O texto é de  Juliana Magalhães e também está aqui:
https://pilhasepilherias.wordpress.com/2016/09/12/belchior-um-coracao-selvagem-no-meio-de-uma-geografia-impossivel/

luz do meu terreiro

chão do meu terreiro

Essa foto é muito simbólica. O pôr do sol é sempre de uma boniteza e melancolia imensas. Representa muito dos ciclos naturalmente se encerrando para dar lugar a transição para outro dia, outro tempo. Sempre achei que é depois dele, antes da noite chegar com suas durezas, mistérios, fugas, seduções e curas, a hora que o mundo fica com a cor mais bonita. Um ano atrás eu fiz essa foto lá no meu chão, na minha casa no Pinga que foi da minha Vó Licôr. Ainda não tinha consciência de que era tempo de ciclos se encerrarem. Até hoje corro pelos terreiros dos dias do jeitinho que Larissa e Maria Luiza correram para essa luz melancólica que aquece tanto a alma, tal qual o nascer do sol do outro dia que sempre vem. As curas, nas noites, chegam a preço de muito autoconhecimento. Preço caríssimo esse de trazer a própria pequenez à luz, olhar com honestidade para o que há de mais involuído em si e se querer pessoa melhor. Mas vi também que dessa sombra penumbrosa a gente consegue enxergar as cores todas do caminho com clareza assustadora. E é bonito demais. É chegar naqueles lugares sensíveis e perenes que nos fazem sentir as proteções, a mágica dos Encontros, o Sagrado Feminino, as razões de ser para o que há pouco não se compreendia. Às vezes um dia dura um ano. E assim vou findando transições, acertando o passo entre um flerte com a noite e a mansidão do dia que chega pela minha varanda. Aqui na rede rubra e num balanço vagaroso, vou bebendo dos sóis nesses dias que chegam no litoral e aquecem a alma tal qual o suor de Larissa e Maria Luiza, de encontro ao ocaso no terreiro meu e de vozinha lá no Pinga, na minha Serra do Horebe.

É um bom dia de gratidão! 💙

Laurita.

Transmutar

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Linda. Graúda! Ela pousou aqui do lado da escada, já faz bem muito tempo, e tá serena, como que espiando o movimento da faxina na casa, nesses tempos que em mim energias também se melhoram, se encontram, se inteiram. Penso no tempo em que naturalmente nos desvencilhamos das teias que envolvem os sentidos caros, teias que se não os sustentam, apenas prendem. Borboletas, dizem, são sinais de renovação e transformação. É tempo de ir, mas principalmente de chegar. Inaugurar lugares interiores. Aquele sonhar e escrever em letras grandes. De novo. Feliz, no sossego de quem escolhe viver sem reserva pro mundo. E se esgota. E quando revive, é com limites alargados. Espírito se forjando melhor, mas com cuidado ao outro, regra primeira. A borboleta pousou na parede da lembrança, esblumada de elegância e liberdade.

Jaguaribe Carne

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Algumas palavras, sentimentos e sensações me vieram ao juízo vendo o Jaguaribe Carne ontem. A primeira sensação foi de Privilégio. No palco um se desafiar, desconfigurar. Atemporalidade. Linhagem. Inquietação. Desapego. Resistência. Encontro. Generosidade. Ser fora da curva, não ter forma. Esse flerte com a incerteza certamente nos acessa aqueles perenes lugares criativos: as odisséias interiores. Porque sem segurança, sem cálculo, cru. Fuerza Bruta. Razão universalizante alguma. Avesso do presumido. O flertar os velhos abismos.

Quis filmar, guardar. Ensaiei. E achei incoerente manter preso a uma “forma” que eu pudesse vê-la repetida. Negaria sua própria natureza. Desisti. Já estava gravada em mim. Passar adiante, partilhar, apenas longe do cartesiano medido. Que coubesse às velhas tradições orais perpetuarem nas boas rodas de conversa de botequim. E foi esse meu quinhão àquele indizível.

Pela Deusa, aquilo era desalinho! É que tenho fascínio pela palavra-forma Desalinho. Vivo fazendo exercícios para não enxergá-la. E ela me chegou inteiramente amparada, anunciada, significada, justificada naquela sonoridade, nos gestos, sentidos muitos. Mas poucas vezes vi reflexos d’alma extraindo o extremo desses sentidos. Cegando, quase. Por um triz, tudo.

Laurita.

mi corazón salvage

Aquela.
Para além de tempos, gentes, cenários, sentidos.
E só conecta com tempos, gentes, cenários e sentidos porque vive, indelével, no que sou. Me reforça, me acende. E ascende. Destemida. Minha.

Só por essa já te teria Amor infinito, Belchis.❤
Tu é foda.

Laura.

vanusasantosflores

 

Ouvindo bastante de ontem pra hoje o disco Vanusa Santos Flores, produzido por Zeca Baleiro, que fez a cantora Vanusa voltar a gravar depois de 20 anos, depois de uma fase funda de depressão. Que disco forte. Agora, mais ainda, tô entendendo a força das palavras de um artigo publicado no Estadão em outubro passado e que me tocou profundamente. É tudo que tá dito ali. Ofereço e indico às amigas e amigos a leitura e, em seguida, a audição do disco. É um mergulho nas forças e fragilidades de uma mulher que respira, agora, na superfície outra vez.

“Alguns discos são apenas discos, outros são vitórias.”

Laurita.

Link para o artigo:
http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,vanusa–depois-de-20-anos–lanca-disco-produzido-por-zeca-baleiro-,1777304

 

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