Feeds:
Posts
Comentários

IMG_20200213_120253_757

Ali fora as águas chegam pra amenizar o calor, limpar e renovar, mesmo que o ralo transborde ou alague a sala limpa. A gente aproveita pra regar livre a planta bonita que veio enfeitar a casa, mesmo que isso exija forçar mais e se estirar até a ponta dos pés. O tempo das plantas tem chegado como tempo de cuidar de dentro. Lá fora as geografias impossíveis, embora ainda se escute canto de passarim. Aqui os alentos da terra úmida de sentir o cheiro e enterrar as mãos, das cores vivas e das alegrias tranquilas. O olhar/retrato é de @fa.bio.santos. Muito agradecida, meu bem. 🍀🌻

 

Laurita

Fev/2020

Tajá

Tempos atrás decidi pedir de presente azamizade mudas de suas plantas preferidas pra enfeitar meu pedacim de terra lá no Pinga, na serra do Horebe, a casa e o terreiro que eram de vozinha Licôr. Chamaria cada planta pelo nome de quem me presenteou e perto delas teria uma plaquinha de madeira com seu nome de planta, seu nome de pessoa e a data que chegou por lá. Fiquei pensando que era um bom jeito de ter nossa energia materializada naquele chão que tanto amo, quando não estivermos mais nesse plano, pra povoar o assunto de quem for chegando depois. Ter plantas em casa hoje me faz sentir um pouco no Pinga, no Horebe, no sertão. Cuidar das plantas também é um movimento de cuidado mais pra dentro que pra fora, cuidado comigo, com as cores que escolhi para a vida e com as pessoas que sempre deixam um tanto delas aqui em mim e na minha casa. É deixar desconectar e ir embora o que não cabe mais por aqui. Essa bonita no retrato se chama Valéria, pois veio do quintal de Maria Valéria Rezende, e vive aqui se misturando com sua literatura/memória de dizer de pessoas e realidades invisibilizadas. Com poesia, sempre:

“Eu ficava tão magoado vendo uma árvore morrer que me abraçava com ela querendo morrer também. Depois juntava as sementes que ela espalhava no chão para lhe dar uma descendência longe daquele perigo. Foi aí que os companheiros me apelidaram de Caroço. Os bolsos das minhas calças viviam encaroçados dessas promessas de vida que eu guardava sem saber se ia poder semear ou se iam morrer comigo”.

É um trecho do livro Ouro Dentro da Cabeça. ❤️

 

Laurita

jan/2020

purificação

“Nas quedas as águas criam forças para seguir sua jornada”. – era Pernambuco quase Bahia quando li isso anos atrás. E é do que lembro cada vez que olho pra esse retrato de minha chegança na Cachoeira da Purificação, no dois de janeiro. A potência que veio junto das águas geladas que não trouxeram medo. Mergulho com gosto, entrega e rito depois de uma trilha metáfora da vida em cada passada. Conexão e entendimento. Há que se agradecer o coração sossegado.

Laurita

Derramou

São Sebastião derramou

Amor na água que te deram pra tomar.

Bebe, bebe

A água que te deram pra tomar.

 

– Por Alessandra Leão

U-ni-du-ni-tê

FB_IMG_1498008307549
Querendo, dá pra escolher a tristeza do dia, todo dia. Do mais íntimo ao coletivo. Que tempos… :/
Mas hoje tô escolhendo botar uma escrita em dia, cuidar do jardim, um café quentinho pra aquecer nesse ar de chuva, ler no balanço da rede e curtir minha casinha com essas cores que escolhi pintar na Vida.
Deve ser porque é feriado, que chega abrindo brecha na rotina. E é estranho pensar que isso simples que semeia paz e sorrisos só cabe nos parênteses dessa Vida vexada, tempo engolindo a gente. Do lado de dentro do muro, um grito escrito em vermelho de “pressa de viver”. Eita Belchior danado…
Mas aqui na vitrola Elis tá cantando O Cavaleiro e os Moinhos, de João Bosco e Aldir Blanc, já mudei uns pregos nas paredes, tô olhando pra cartinha e pras flores lindas que Dani, mi hermana de morada, deixou de carinho antes de viajar, e tb tô fazendo um plano pra que isso leve que merece ser vivido, também possa caber nos dias de lutas, de carmas, de escolhas, de resistências… 🍃

Laurita

80 anos de Tom Zé

Oitenta é um número graúdo para contar os anos. E é um grande privilégio estar no mundo no mesmo tempo que Tom Zé. Desejo muita fartura de Vida para esse Baiano de Irará que consegue ser vanguarda em qualquer tempo. Deixo aqui alguns registros de quando ele veio em João Pessoa, em agosto último, e topou uma prosa massa com um povo que desalinha do estabelecido. Foi mais um passo pro meu projeto de doutorado. Uma grande lisonja tê-lo numa roda de conversa sobre o conhecimento narrativo que se perpetua pela cultura oral, em contraponto ao cientificismo, ao saber cartesiano e às padronizações que tanto excluem. Vida farta a esse querido, genial e generoso Tom Zé!

Hoje. 12 de setembro de 2016. Mais um daqueles sinais do Universo que me chegam no momento exato, pra fazer entender que há conexão e proteção. Que palavra silenciada encontra jeito de dizer. E diz. Pelos oceanos virtuais me deparo com esse texto que diz de deslugares para corações selvagens. Respiro e agradeço. Tem dia que dura um ano. E que venham os novos amanheceres…

Belchior; Cantor

Musico Belchior em 1977. FOTO DIVULGAÇÃO.

– E aquele poeta, moreno e latino, que, em versos de sangue, a vida e o amor escreveu… Onde é que ele anda?

– Ninguém sabe dele…
– Fez uma viagem ?
– Não, desapareceu.

Belchior parece conhecer a fúria da vida como pessoa sensível que é ao reconhecer que os aspectos da vida da forma que é (im)posta ainda não possui oxigênio, espaço e afabilidade o bastante para adequar-se a sua rebeldia. Poucas pessoas conseguem enxergar, compreender e deixar escorrer pelos poros e pelas tintas das canetas as modulações implacáveis da vida. É preciso saber sentir, saber chorar, é preciso ser atingido por dores que parecem insuportáveis, buscar a poesia inalcançável da realidade viva e não encontrá-la nunca. É preciso ter a consciência lúcida de que a vida ignora a fragilidade dos corações , e consequentemente os atropela de diferentes formas – todas frívolas -.Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver. Não adianta apelar para Deus ou pedir a vida para que pise devagar. Pouco importa se o coração é como vidro ou feito beijo de novela, e o ”pouco importa” é o que direciona os descontentamentos dessa sensibilidade que se confronta o tempo inteiro com um mundo colérico e apático. Viver é ser atropelado diversas vezes, Belchior.

O que fazer quando não se cabe na própria vida, no próprio corpo, na própria alma ou na própria canção? Onde estão as repostas, as vias, as saídas quando não há evasões razoáveis que respeitem os desejos e as velocidades? Talvez na ausência. Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja. Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo tenho pressa de viver. Belchior deseja o desejo de forma pura, nua. É subversivo ao afirmar não querer o que a cabeça pensa e que anda pelo caminho errado pela simples alegria de ser. Como viver no mundo sem a racionalidade de se guiar pelo que a cabeça pensa? Não é viável, Belchior. Não sem uma angústia violenta. Mas Belchior quer o que a alma deseja ainda que não encontre a alma nas coisas.

Não há a profusão de sensações tencionadas no cotidiano, e essa é uma condição de desolação em que Belchior vê o amor esvaziando-se e canta a diminuição do sentimento que mais importa: o amor. E no escritório em que eu trabalho e fico rico, quanto mais eu multiplico Diminui o meu amor. Como é avistar o que mais importa em uma vida ruindo-se e indo embora pela veemência morta do cotidiano? Talvez fugindo dele e aceitar a perversa – e imutável – juventude do coração que compreende apenas um universo restrito e vulnerável em demasia. Escreva a frase que só entende o que é cruel e o que é paixão em uma folha de papel e reflita sobre a aflição de possuir um coração que só capta essas emoções tão divinas e tão quebradiças. Não é fácil conceber o infinito de Belchior.

Belchior cansado do peso da cabeça, tem medo da hora da verdade que ele sabe – dentro de si e da canção – que vai chegar, fazendo-o andar de mãos dadas com a solidão, que talvez seja a sua grande – e paradoxal busca – depois do amor. Belchior não estava cabendo no mapa do Brasil. Ele tem medo de Minas Gerais, de Vitória, de Goiás, de São Paulo, da Bahia e de todos os estados do país. Todos esses lugares parecem não sustentar um coração selvagem onde há dor e silêncio. Belchior quer o novo momento, quer jogar tudo fora e fugir. Quer pegar um avião ou um navio para um lugar onde um jovem como ele pode amar e ser feliz. E adivinha? Ele procurou passagem e não havia linha praquele país.

Belchior parece ser feito de buscas intermináveis. Faz da existência um lugar grandioso demais para deixar-se um deserto árido. Ainda não há superfície que abrigue o deslugar, a pulsação e a intensidade de um homem como Belchior. Perder-se no mundo foi o único jeito de se encontrar. Ainda que ele continue perdido.

O texto é de  Juliana Magalhães e também está aqui:
https://pilhasepilherias.wordpress.com/2016/09/12/belchior-um-coracao-selvagem-no-meio-de-uma-geografia-impossivel/

%d blogueiros gostam disto: