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Archive for outubro \25\UTC 2010

Myrdynn e Ninian

Myrdynn era um filho ilegítimo de um Lord Anglo. Cresceu voltado para as coisas que não se podia ver, tocar ou ouvir. Ouvia, tocava e via o que nada disso se podia. Era uma época triste de destruição e sangue. Roma caíra, mas não o Cristianismo. A nova religião fazia correr o sangue dos tidos como ineptos e imundos adoradores dos velhos deuses que agonizavam sob a espada da nova doutrina…

Caminhando sob as chamas de um mundo que se contorcia em lenta e quase lânguida agonia, duas pessoas seguiam sozinhas entre mortos – deuses e mortais: Myrdynn e Ninian. Procuravam debaixo das cinzas, muitas vezes úmidas de lágrimas, um mundo não mais palpável, mas ainda vivo nos mistérios da morte e da natura, perdido ainda em parte entre as sombras escuras dos bosques da terra e das almas.

Deram-lhe outro nome depois de morto: para os homens modernos Myrdynn passou a se chamar Merlin, O Mago. Ninian, dela não se sabe. Talvez ainda caminhe, sozinha a cata dos seus deuses, mortos senão talvez disfarçados no vento que geme entre as folhas…

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feridas e saudade

Que os deuses das feras tenham dela piedade e, lenientes, brindem-na como sempre o fizeram: com a placidez necessária ao convívio com as feridas abertas que sempre, mas sempre, demoram a fechar…

Laurita Dias

Saudade

Hoje que a saudade me apunhala o seio
E o coração me rasga atroz, imensa
Eu a bendigo da descrença em meio
Porque eu hoje só vivo da descrença

À noute quando em funda soledade
Minh’alma se recolhe tristemente
Para iluminar-me a alma descontente
Se acende o círio triste da saudade.

E assim afeito às mágoas e ao tormento
E à dor e ao sofrimento eterno afeito
Pra dar vida à dor e ao sofrimento

Da saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito
Mas que no entanto me alimenta a vida.

(Augusto dos Anjos. Em 1899)

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Luto e Lisonja

Eram dias estranhos e desleais. A cama parecia ter espinhos, levando a sonos inquietos e exaustivos. A Lua era plena e inspirava sentidos, mas aqueles dias traziam consigo o cansaço de anos de guerrilha, exaustão pesando sobre os ombros. Gurgel estava a postos como sempre, com a energia que podia, amparando e direcionando sensibilidades, empoderando nas lutas, oferecendo o melhor que tinha pra que Laura Days resistisse. Ele, tão mais exausto dos dias, inda se doava sem reservas àquela sua cria igualmente cansada.

Era véspera de sua partida e saltavam do monitor de Laura as palavras de orientação e incentivo ajudando-a a desatar seus nós pessoais e os metodológicos que impediam os saltos acadêmicos. Fora palavra rara, dessas aulas que, quando em vez, ela tinha à distância. Ela guardara em A4 a preciosidade daquelas linhas, para delas beber quando lhe ocorressem inseguranças. Fizeram um pacto. Idéias dela postas no papel chegariam para uma revisão dele. Dia seguinte estariam na virtualidade combinada para darem corpo e vida a um gancho Tropicalista. O assunto do empenho dele junto dela nos mares de Tom Zé e da Tropicália haviam tomado todo o seu dia, seu pensamento, suas conversas com todas as pessoas. E ela que tinha de aprontar idéias para enviar pra ele, passou o dia numa espécie de angústia que a imobilizou, já se preparando para a fúria dele quando confessasse que nada produzira. No dia seguinte ele não veio e ela sentiu estranheza.

Ele era daqueles gentleman’s que palavra dada, podia ser marcada a ferro. Para ela mais que isso: era um daqueles heróis que ela ouvia sua música, lia seus livros, assistia na telona, acompanhava a vida. Mais ainda: podia desfrutar de sua profunda amizade partilhando tudo que falasse mais alto ao espírito, fossem música e poesia, dramas familiares ou com a saúde, aventuras e desventuras passionais – dos encorajamentos aos esporros mais cruéis. Partilharam suas coisas mais caras e era um privilégio recíproco que já haviam confessado, graças aos deuses (e à internet, é claro).

Raro era o dia que ela não dissesse dele, fosse falando de Música, de História, da “Educação dos Ouvidos” ou do que alicerçou posturas de competência e ética, tamanha era a referência que ele representava para Laura. Todos os amigos-irmãos dela o conheciam, alguns deles já estabeleciam contato direto com aquele Senhor das Tormentas, mesmo sem nunca o tererem avistado. Mesmo de longe, todos notavam quão especial era aquele homem dono de falas ácidas que, contra mediocridades, peitaria o mundo se precisasse.

O dia do encontro que não houve passou-se com um desconforto estranho e, naquela noite, estavam no player do carro, na volta do trabalho, canções há muito engavetadas que lhe transportavam às boas épocas da Universidade e a todo aquele Universo de início e final de curso. Pensou em ligar pra ele logo que chegasse em casa, pois também lhe ocorrera a idéia de montar um painel divisório em seu novo MiniAP com o mesmo material que ele usou pra uns quadros de sua sala. Chegou em casa, correu pro blog dele onde tinha post falando dos tais quadros e vendeu a idéia pro Marcus, seu companheiro. Faltava perguntar a Gurgel dos detalhes. Mais assunto pra próxima conversa, que já contava com as questões acadêmicas, as últimas aquisições nos sebos virtuais, a notícia do Gotan Project no quintal de casa, a mais nova piada de excelente gosto e, claro, não podia esquecer-se de passar o endereço físico para receber os arquivos de Vídeo, áudio e os e-books que prometeram trocar. Era coisa demais que sempre se acumulava pra ser dita, de modo que, concordavam, certos assuntos “só pessoalmente”.

Organizadas essas idéias em segundos, desploogou do Opinio, blog dele, quando o relógio marcava 21h30min. Muda-se a aba de navegação na net e pelas redes sociais chega em mensagens privadas a notícia que ela não conseguia repetir, mas sua palidez denunciava enquanto o peito ardia e o corpo vagarosamente deslizava da cadeira:

Nosso querido ex-professor Paccelli acaba de falecer de infarto fulminante no hospital de Cajazeiras.

Como poderia imaginar tamanho golpe? Que dor era aquela que fazia tremer seus músculos e banhava seu rosto numa corrente líquida cortante que jamais havia experimentado, anos de açoites lhe pesando sobre os ombros?

Fora amparada quando, em pranto silencioso e quase letal, viu, a um só tempo, a notícia da morte de Gurgel de um lado e as folhas A4 com a última conversa e suas últimas palavras escritas no dia anterior: “NÃO DEIXE MORRER, NÃO DEIXE MORRER, NÃO DEIXE MORRER A IDEIA, LAURA…”

E um pranto em desespero lhe tomou noite a dentro. Correu pra varanda e avistou uma Lua Cheia digna de despedidas, sem esperança que coubesse naquele monte de chão que separava o litoral Baiano do Sertão Paraibano, fazendo as despedidas na distância ganharem a madrugada ao som de tristuras maturadas no sumo de um coração aflito, agora enlutado também pela ausência de quem lhe dera nome e sobrenome, já que essa lúgubre sensação a vida já lhe tinha permitido.

Havia, sobretudo, uma voz que queria um grito, mas só conseguia vazio. Entendera o que era Luto. A paralisia que causava. Muitos dos seus foram às despedidas, levaram seu respeito, oração, gratidão e Amor àquele Albatroz, o Senhor das Procelas e Tormentas. Para ela não deu tempo, e o vazio dos quereres deixava Laura Days naquele estado de tanto faz que galgava íntimos esforços para não ser.

Os dias se arrastavam e a palidez das letras no monitor dava conta da falta que ela sentia de quem, além de sobrenome e nome, também lhe dera rumo e música. Ela que já partilhara infinidades de sonoridades, risos e dramas com aquele Cavaleiro Negro, agora sentia inteiramente as dores de uma fera irmã cansada de guerrilhar pela carne, há tempos imerso em belas tristezas.

Bradava aos ventos a honra que lhe fora conferida em anos de convivência com aquele lord eivado de cicatrizes, e mesmo longe daqueles bancos da Universidade e da vivência diária, sabia que ele guardava sua palavra ácida e irônica para os que lhe eram mais caros. E dessas palavras ela partilhara em vários espaços, mesmo sem diálogos, nunca importando distâncias.

Fora ele quem lhe mostrou que a dignidade humana resiste aos trovões da iniquidade e às garras febris da mediocridade, mesmo que em combates regados a ferro e fogo, com a exaustão a pesar sobre os ombros. Foi essa a maior herança que Laura recebera dele, desde a entrada no Curso de Licenciatura em História em 2003, quando Coordenador e Professor do Curso, ele adotou um bando de feras fazendo-os ler e ouvir música, se inquietar, pensar e tentar fazer diferença no mundo. Como fez com tantos e tantos e tantos…

Mas perdoem-na os outros, Laura Days é sua cria mais orgulhosa.

Paccelli Gurgel nasceu no Rio Grande do Norte no dia 1° de Janeiro de 1964, na cidade de Mossoró. Arqueólogo Pós-Graduado na UFPE, foi Professor de História Antiga no Curso de Licenciatura Plena em História da UFCG – Campus de Cajazeiras-PB, cidade onde viveu seus últimos 20 anos. Lá também foi Cronista do Jornal Gazeta do Alto Piranhas e Membro Fundador do Arlequim Rock’n’roll Band. Era fascinado por arte, sobretudo por Literatura e Música, grandes paixões que partilhou em tudo quanto foi espaço: em Mini-Cursos sobre Rock’n’Roll na UFCG, no palco, em mesas de Bar, na varanda de casa, nos corredores da Universidade, em Listas Virtuais ou mesmo no Opinio, seu blog (linkado do lado esquerdo na sessão “Afinações”). De família pequena, dedicou os dias a cuidar dos seus entes queridíssimos. Foi um pai exemplar e uma figura humana fantástica. Perdeu a mãe, “sua espinha dorsal”, em agosto de 2009 e a Tia em Maio de 2010, restando-lhe então a filha e um irmão. Dono de uma escrita e humor ácidos, lascivos e inconfundíveis, foi responsável pela iniciação de dezenas de alunos e amigos nas leituras e nas lides Acadêmicas e da Música. Faleceu em Cajazeiras no dia 21 de Setembro de 2010, às vésperas da Primavera, numa noite de Lua Cheia.



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