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Archive for novembro \20\UTC 2010

Seu cansaço

para Luciano Freitas, pelas palavras caras.


Não demora, já fica aflita com a desconhecida solidão de agora e depois. Mas só quando pensa. Segundos inteiram horas lentamente, e cada dia que consegue terminar é vitória. Seu corpo cansado não respira nem aspira como antes, mas acha que não envelheceu para aqueles sonhos e fantasias erguidos a duras e sensíveis penas. Definitivamente, não quer outra pessoa, se quer de volta à vida.

Que caminhos tortos são estes que lutas de anos somadas a um Amor doente levam as pessoas, não é? Como se valor algum tivesse a auto-lapidação durante tempos e tempos em busca de coisa boa pras ações e pro espírito. Sobrepõem-se nas pessoas somente as coisas mais primárias, primitivas, instintivas e mais cruas: reatividade, insultos, medo, falta de próprio amor. A natureza poética e melancólica tende a aguçar a dor insana de negar a si mesmo e acabar sendo o que lutou-se toda uma vida para não se ser, não se ter, não viver.

Há um desejo de compreensão que, graças aos deuses, faz surgir uma palavra íntima e esclarecedora posta em papel, e ajuda a tirar o foco do que dói e buscar beleza no que se diz. Teria sido isso o que fez poetas resistirem aos dias, tomados de emoções nuas tempos afora?

Impacto ela sentiu quando um poeta disse que a Arte procura verdade e beleza. Que grande poeta! Que grande motivo, razão buscada incessantemente nos passos pra mais perto do sentimento e sua expressão! Como fosse uma dor que lateja enquanto insana, sabe? Que quando se descobre sua verdade e a beleza de dizê-la, ela vira só um verso tristemente belo, lindamente saudoso, nostalgicamente doloroso.

Tem alívio maior pra uma alma sensível que saber ser compreendida, ouvir música que canta sua dor, ler poesia que fielmente lhe descreve, pintura que lhe retrata? Imagine você mesmo conseguir se descrever! É muito mágico o momento de desvendar emoções cruas. Por isso que, essencialmente, qualquer um pode ser poeta.

Às vezes, ela ficava dali querendo transformar dor em arte, mas andava com algo dentro de si e fora de si que não conhecia palavra que dissesse, chegava perto de cansaço, era maior, mas sem um fim que seus sentidos óbvios pudessem revelar.

Perguntaram-lhe:

– O que você vai fazer de volta a sua terra?

A resposta foi instintiva:

– Resistir.

Por enquanto não conseguia querer nada mais imediatamente que isso.

Disseram pra ela não construir altar pra tristeza, pra não deixar a dor vampira sugar mais, lembrar de quando a dor era apenas sombra de pensamento vago, quando a pulsão de lutar e viver era clara. Que a força está dentro, mas se sem forças para reacender as próprias forças, não custa buscar um pouco fora,  na fé ou nos amigos… mas dali só vem energia para reacender…

“A vida se dobra na vontade de quem quer continuar.”

“É um ‘vou conseguir’ porque eu quero… e porque eu mereço…”

Às vezes ela supõe que sua mente consiga, mas não sabe do seu corpo surrado de anos dos próprios açoites e maus tratos. Tudo em sua carne dói, vez ou outra acha que vai cessar. Seria alívio ou sofrimento? Tomara que alívio.

Laurita Dias

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Ainda…

Foi um rompimento na impossibilidade. As fumaças de um cigarro dançavam no negrume daquela noite, piedosa apenas pela presença da Lua Plena. 

Ele olhava para esse tudo dela que podia avistar e que o vento fazia esvair-se em segundos. Caminhava. Havia um muro, uma porta e uma grade afirmando o comedimento que nem se sabia mais. Brotaram de suas penas, linhas exaustas de um Amor pedindo abrigo, querendo respirar. Ainda.

Faltou luz, mas já era dia. Disseram. Vagou até fazer Sol, mas se queria Lua. Luta-se. Cansados ambos, ofegantes ambos e ambos a não acreditarem nas causas que defendiam. Carne e feridas à mostra contra tudo do Amor que ao outro se dedicava. Imploraram trégua, já que os vinhos mais baratos lhes foram arrancados. As almas foram laceradas com todo o arsenal que a ausência oferece aos combatentes feitos de fogo e dor, insistindo no “não” brandido a braço de ferro, cortante e penetrante.

Depois de tudo acabado, vencedores de si mesmos, de joelhos, receberam o prêmio final motivo de tão renhido duelo: a certeza que podiam ir-se e a profunda tristeza que cabe àqueles que conhecem o alto preço de suas conquistas.

Tempos vão e são, e chega para um deles a vista vagarosa de um casco sujo sob velas ensorbecentes, antes amarrado ao cais do Amar. Piedade das águas que correm sob inteiro efeito de despedidas, levando para muito, mas muito longe dos encantos, aquela vontade de Primavera que, em delírios, um dia ousaram sonhar…

Laurita Dias

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Marinheiro Triste

Por Jaya Magalhães

“Marinheiro triste
Que voltas para bordo
Que pensamentos são
Esses que te ocupam?”

(Marinheiro Triste – Manuel Bandeira)

 

E nela moram interrogações. Os assombros mesmos, de anos atrás. Pela janela escancarada, quem passa vê. A moça de face apoiada em mãos, e aquele olhar que não enxerga. Foi ele quem partiu, outra vez. E o litro de aguardente que ficou na mesa ao lado bem serviam para lembrá-la de como o amor do que se foi a esquentava.
Marinheiro, marinheiro! Envolto em tuas águas, sente-se no comando do mundo, bem sei. Carrega uma lista de corações partidos a cada canto por onde passa. A cada porto, escreve um desamor. Os olhos que te retratam, verdes, jabuticabas, azuis, castanhos, de mel, do-Pará. Cada um, uma festa que já foi. E depois as águas. E nada. Solidão para os teus olhos tristes, marinheiro. Coração nenhum ao lado teu. Uma pena. Mesmo? Já não sei mais.
Observo-te em tom de pesquisa, há muito. Lembro os dias onde o mundo ainda era pouco. De quando você se fez homem do mar. Teu lenço, chapéu, farda, botavam doidas as mocinhas todas. Soubesse aproveitar os bons frutos, hoje teria uma árvore bem cuidada. Mas quem quer saber de árvore quando nunca se ancora? Você aproveita das estações o que de melhor elas te oferecem.

Teu navio, que nome ele tem, marinheiro? Nome de amor, sofreguidão, azedume? Pelo casco sujo, acredito em desimportância. Se houve batismo, um dia, já não se sabe das memórias. É a água que leva e a onda que traz de volta. Por isso você retorna. Bebida e charuto. Posa em desafeto, e depois parte em tropeços. Deixa aqui um verso, por hoje. Poema para a donzela. Perfume para as prostitutas dos teus portos de escala.

Espia São Jorge, enquanto a lua se levanta. Já notou do teu navio, quando os ventos te levam os contos daqui, como é bonito o mar grávido em luar? Sentiu-se filho? Bem sei que você se torna céu azul, marujo. A moça carrega pintura tua no altar. Pobre da moça.

Esse batom barato borrando teus lábios, de que passagem grudou? Tão encarnado quanto as demais paixões profanas. Sei que hoje não é mais dado a confetes. A tristeza bem desenhada nos teus olhos escuros chega a ser divina em sua verdade. É a tristeza envelopada em si. Carta escrita por você, marinheiro. Te alcançaria em qualquer mar.

Marujo ia no olho verde da moça, em doce navegar. Moça no coração do mar. Ele é filho. Saltariam juntos apenas quando a garrafa de amor escrito fosse aberta. Descoberta. Tinha dos dois, nalgum lugar. Vidro frágil. Era a promessa. O desembarcar em cada porto era o viver sendo entregue. Missão. A moça era do marinheiro. Ele, dela. E sempre foi assim. Necessário transverberar?

Marinheiro viu coração em garrafa. Infinitude nadava. Afogou-se. Muito (a)mar.

Foi embora todo aquele há de ser. Hoje, água e sal moram nos olhos da moça, junto com as interrogações. A cada lua, face apoiada em mãos, e o não enxergar. Quem passa vê, pela janela escancarada.

Amar. Há mar. Amor perdido. Gaivota. Ela virou ilha. Ele, céu – seu.

http://liricass.blogspot.com/2008/09/marinheiro-triste.html

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É místico

para Thalyta

Uma vez ganhei dela um abraço que me levou pra mais perto de mim. Sentiu, falou e pensou igualzinho. Dissemos de cansaços, vínculos, identidades. De cores bonitas que pessoas pintam nos dias da gente, de coisas que vão embora como o vento que passa. E fica.
Às vezes é preciso fechar a janela e chamar o vento só quando a gente quer, né? Eu não sei de ventos, mas na guerrilha pra me manter sã, ela deixou com motivo um dia meu difícil de resistir, feito brisa na tormenta. Eu deixo pra ela palavra nua, porque a gente gosta sempre de dizer, e ela é desse povo que ta sempre sem reserva pro mundo…

É isso que dá cor à vida. Ela disse que é místico. E a gente sente.

 

Laurita


Foi pra ela que Fernando Pessoa falou hoje:

Sossega, coração! Não desesperes!

Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

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