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Archive for outubro \11\UTC 2015

tropicália lixo lógico

Compartilho com as pessoas que se interessam por Tom Zé dois registros incríveis do Programa Ensaio, da TV Cultura. O primeiro, de 25 anos atrás. Ambos foram determinantes pra desatar os nós conceituais na minha dissertação do mestrado. Meu trabalho: “Desalinho à norma: um estudo de caso sobre marcas de oralidade em produções textuais na EJA“.

Pode parecer distante, mas o olhar para a riqueza das tradições orais presentes no Recôncavo Baiano, na Irará de Tom Zé, na minha Monte Horebe e no meu alto sertão paraibano, foi a condição para estar no universo acadêmico e, baseada em vivências, questionar o cartesiano. Inclusive o cartesiano acadêmico ao qual jamais me ocorrera ser parte dele ou ele de mim. O argumento só ganhou força porque baseado em muito da minha identidade e, sobretudo, na identidade de minhas alunas e alunos da Educação de Jovens e Adultos, que têm uma forma outra de pensar e conceber conhecimento que não a aristotélica: “- Seu Antônio, quanto mede essa corda? – É meu tamanho mais duas braça”. Conhecimento genuíno desalinhado à norma, que não cabe na escola, que apenas vai se acomodando em margens sociais.

E pra falar só do povo do nosso terreiro paraibano que ouço sempre (sabendo que já já vou lembrar de um monte que não mencionei aqui), vejo essas heranças de nossa gente mais gente na música da Cabruêra, do Tocaia da Paraíba, de Escurinho, Chico César, Totonho, de Seu Pereira e Coletivo 401, Chico Correa&Eletronic Band, na Tribo Éthnos! E tantos e tantos. Faço questão de ter sempre essa arte em minhas aulas. E agrada! Um genuíno profundo vivíssimo presente também em Manoel de Barros e latente em Guimarães Rosa, ambos de minha cabeceira. A impressão que tenho é que vamos encontrando os fios condutores que botam muita gente na afinação e ousadia de peitar o estabelecido. E assim seguimos celebrando os Encontros na estrada…

Nessa estrada de bons Encontros para meus sentidos, Tom Zé pariu o “Tropicália Lixo Lógico” em 2012, pra amarrar os pensamentos sugeridos em registros até anteriores a esse vídeo do ano de 1990, compartilhado aqui. Veio mesmo bagunçar as lógicas estabelecidas, trazendo vivências, identidades e raízes preceptoras babás profundas, para contrapor consensos e traçar um desenho também profundo do Tropicalismo (sugiro ver o encarte do disco que explica tudo de um jeito bem didático!). Uma riqueza os suportes de sua expressão, da representação de seu pensamento e de suas experiências de conhecimento. Isso tudo é muito nosso. Sempre naquele limiar entre o que é música ou ruído, uma genialidade meio inalcançável para a liquidez desses tempos.

Na escola, o desafio é acolher a identidade da(o) estudante, expressa em sua fala e refletida na escrita, sem deixá-la à margem do correto, mas como uma expressão outra do conhecimento, para além de padrões gramaticais. Assim o Tropicalismo fez, num movimento meio às avessas, quando diante do novo e cartesiano. Esse cartesiano, também representado por guitarras elétricas e conjugado junto das expressões e vivências sessentistas todas, foram gatilhos disparadores para trazer à tona a informação ancestral, seus preceptores babás e a referência da tradição oral analfabeta de Aristóteles, antes das crianças terem contato com o cartesiano escolar. A equação disso tudo é deleite para os sentidos: ouvidos, retinas, aroma, arrepio, apetite! Na escola, é olhar para os/as estudantes fora da sombra do fracasso escolar, mas podendo conjugar, também juntos, seus saberes narrativos e o novo cartesiano, quando decifrar a escrita pode ter o mesmo assombro doloroso e maravilhado que o Tom Zé dos anos 90 descreve nesse vídeo aqui compartilhado. De modo que vejo riqueza e genialidade em minhas salas de aula, onde é mais lógico perceber ruído.

Bem, é assunto demais. Sugiro os vídeos completos. E pra ver/ouvir a profundeza da fala de Tom Zé sobre as culturas orais e o jeito de aprender (Freireano!) passe aí pros 28min50seg no primeiro vídeo, de 1990.

No segundo vídeo mais um registro precioso e imperdível pra decifrar os caminhos interiores de sua arte. Taí ele próprio explicando com muita profundidade o disco e, consequentemente, a Tropicália.

Programa Ensaio | Tom Zé | 1990

Programa Ensaio | Tom Zé | 10/08/2013

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Tom Zé

tom zé

Hoje é aniversário desse baiano de Irará que me inspira pra Vida! 79 anos. Vanguarda nos 60′ e vanguarda hoje. O Não-padrão. Conexão com a gente brasilis e sua unimultiplicidade. Desalinho. Assimetria. Antropofagia de faminto. Mas Tom Zé já era Tom Zé antes da Tropicália… e continua sendo. Quem mais? Faz tempo que o estudo, ouço, degusto e sempre fico mais de cara com o nó de cada ponto que ele dá. Que maravilha é estar nesse tempo e no mesmo mundo que ele, seguir nas pistas da razão de ser de sua arte. A imensidão desse Zé jamais caberá em palavras, guiçá em sentidos. Vida longa ao mestre!

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