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Archive for the ‘Desalinho à norma: tradições orais em Tom Zé e na EJA’ Category

tropicália lixo lógico

Compartilho com as pessoas que se interessam pela arte de Tom Zé dois registros incríveis do Programa Ensaio, da TV Cultura. O primeiro, de 25 anos atrás. Ambos foram determinantes para desatar os nós conceituais na minha dissertação do mestrado. Meu trabalho: “Desalinho à norma: um estudo de caso sobre marcas de oralidade em produções textuais na EJA“.

Olhar para a riqueza das tradições orais presentes no Recôncavo Baiano, na Irará de Tom Zé, na minha Monte Horebe e no alto sertão paraibano de onde vim. Isso foi essencial para que eu conseguisse estar no universo acadêmico questionando o cartesiano mas também compreendendo seus choques heurísticos com a cultura narrativa, trazendo labaredas de entendimento e percepções. Jamais me ocorrera antes ser parte do cartesiano acadêmico – ou ele de mim. Tanto pela minha identidade quanto pela identidade de minhas alunas e alunos da Educação de Jovens e Adultos, que têm uma forma outra de pensar e conceber conhecimento que não a aristotélica: “- Seu Antônio, quanto mede essa corda? – É meu tamanho mais duas braça”. Conhecimento genuíno desalinhado à norma, que não tem lugar nas estruturas escolares e continua se acomodando em margens sociais.

E pra falar só do povo do nosso terreiro paraibano que ouço sempre (sabendo que já já vou lembrar de um monte que não mencionei aqui), vejo essas heranças de nossa gente mais gente na literatura de Maria Valéria Rezende (que nasceu escritora na Paraíba), na música da Cabruêra, do Tocaia da Paraíba, de Escurinho, Chico César, Totonho, de Seu Pereira e Coletivo 401, Chico Correa&Eletronic Band, na Tribo Éthnos! E tantos e tantos. Faço questão de ter sempre essa arte em minhas aulas. E encanta. Um genuíno profundo vivíssimo presente também em Manoel de Barros e latente em Guimarães Rosa, ambos de minha cabeceira. A impressão que tenho é que vamos encontrando os fios condutores que botam muita gente na afinação e ousadia de peitar o estabelecido. E assim seguimos celebrando os Encontros.

Na estrada desses bons Encontros, Tom Zé pariu o “Tropicália Lixo Lógico” em 2012, amarrando os pensamentos sugeridos em registros até anteriores a esse vídeo do ano de 1990, que compartilho adiante. Veio mesmo bagunçar as lógicas estabelecidas, trazendo vivências, identidades e raízes preceptoras babás profundas, para contrapor consensos e traçar um desenho também profundo do Tropicalismo (sugiro ver o encarte do disco que explica tudo de um jeito bem didático!). Uma riqueza os suportes de sua expressão, da representação de seu pensamento e de suas experiências de conhecimento. Isso tudo é muito nosso. Sempre naquele limiar entre o que é música ou ruído, uma genialidade um pouco inalcançável para a liquidez desses tempos, que funde o extremo domínio da técnica com a onipresença de seu chão raiz e suas expressões de ser, pensar e dizer.

Na escola, o desafio é acolher a identidade da e do estudante, expressa em sua fala e refletida na escrita, sem deixá-la à margem do correto, mas como uma expressão outra do conhecimento, para além de padrões gramaticais. Assim o Tropicalismo fez quando diante do novo representado por guitarras elétricas. Conjugado junto das expressões e vivências sessentistas todas, esse novo foi gatilho disparador para trazer à tona a informação ancestral, seus preceptores babás e a referência da tradição oral analfabeta de Aristóteles, antes das crianças terem contato com o cartesiano escolar. Segundo Tom Zé, fenômenos daquele contexto como a semiótica, o processamento de dados, a teoria dos Quanta de Planck e o próprio mosaico da TV levaram o Brasil da Idade Média para uma segunda Revolução Industrial. A equação disso tudo é deleite para os sentidos: ouvidos, retinas, aroma, arrepio, apetite! Na escola, é olhar para as e os estudantes fora da sombra do fracasso escolar, mas podendo conjugar, também juntos, seus saberes narrativos e o novo cartesiano, quando decifrar a escrita pode ter o mesmo assombro doloroso e maravilhado que o Tom Zé dos anos 90 descreve no vídeo compartilhado adiante. De modo que nós educadoras e educadores populares enxergamos riqueza e genialidade em nossas salas de aula, onde é mais lógico perceber ruído.

Bem, é assunto demais. Sugiro os vídeos completos. E pra verouvir a profundeza da fala de Tom Zé sobre as culturas orais e o jeito de aprender (Freireano!) passe aí pros 28min50seg no primeiro vídeo, de 1990.

No segundo vídeo mais um registro precioso e imperdível pra decifrar os caminhos interiores de sua arte. Taí ele próprio explicando com muita profundidade o disco e, consequentemente, a Tropicália.

Programa Ensaio | Tom Zé | 1990

Programa Ensaio | Tom Zé | 10/08/2013

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