Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Painho e minh’alma encharcada.’ Category

FB_IMG_1458438187769

Era inverno na alma. Fazia o percurso João Pessoa/Monte Horebe quando o 19 de março estava prestes a se anunciar pela madrugada longa, horas difíceis, caminho do litoral ao sertão para as despedidas do meu pai. O Divino o havia chamado, deu-lhe uma morte leve e nos agraciou com uma linda despedida. Mesmo assim, o céu derramava as águas que talvez eu precisasse chorar para merecer alívio. Também me recordara a tradição popular, e eu pensava na felicidade sertaneja com o bom inverno garantido pela chuva no dia de São José. Disse um amigo que, seguramente, ao chegar ao andar de cima, o Dr. Chico Dias convocou assembleia e, com a maestria na arte da fala que sempre o diferenciou, conseguiu convencer as divindades a abrir as comportas do céu e contemplar o sertão com abençoadas chuvas.

A corrente líquida dos céus ao chão avivava esperança de bom inverno. A corrente líquida que até hoje divide semblante, diz de almas encharcadas de saudade, aquela pelo Amor que fica, egoísta ainda pela falta da matéria. Mas o luto e a tristeza parecem ter propósitos, e a gente vai atravessando o sentimento em busca de equilíbrio para o espírito, na odisseia pelos mapas interiores. E por mais palavras que nos digam, nenhuma, nem todas, dão conta de aplacar a tristeza que vez ou outra nos arranca lágrimas, mesmo percebendo quão generosa foi a espiritualidade com o tão animado poeta, o boêmio, orgulho para sua terra, homem transparente e de caráter, que há pouco inventara mais um mote para suas poesias: “o martelo da morte é tão pesado, que a pedreira da vida não aguenta”. Frase de efeito, por quem escolheu levar a vida feito balanço de cadeira na calçada em fim de tarde: embalo vagaroso pra combinar com a tranquilidade da vida na serra do Horebe, sem ambição que lhe tirasse sossego, mas na retidão de caráter que lhe punha inteiro na vida e na labuta.

Dr. Dias, Chico de Joca, meu Painho, foi um sujeito do bem. Boa conversa, era dele que vinham os mais belos e motivadores discursos. E eu sei decoradas várias histórias, de poetas, de nossa família, da fantasia de seus amores platônicos, de juventudes, de aperreios, dos tempos de delegado, de advogado… Passei muitos anos com mania de ler dicionário, porque, quando menina, vivia no pé dele, que falava difícil com os amigos e eu, pra entender das coisas que ele dizia, decorava as palavras pra ver o significado no dicionário depois. Assim seguia no rastro dos sinônimos, descobrindo os sentidos da fala do meu pai. Foi ele que, além de medida de Amor e gentileza pra estar no mundo, me despertou a paixão pela palavra e pela poesia.

Ele sempre será meu grande amigo, minha inspiração, minha saudade feliz, minha saudade doída, minha gratidão, meu “eu te amo” todo telefonema, meus dedos das mãos iguaizinhos, a gentileza de nunca me deixar abrir a porta do carro, a caligrafia impecável, os comentários gentis nas fotos de internet, o pedido pra eu permanecer junto quando lhe faltavam forças. Tem também aquele lodo suave dos olhos, os olhos verdes, verdidos de esperança nos dias que sempre desejamos melhores..

Fomos e somos extensão um do outro, eu sei. E só tenho que agradecer o privilégio de tê-lo como pai nessa existência, por trazer no meu nome o nome de sua mãe, minha Vó Laurita. Agradecer o presente de estar ao seu lado até os últimos instantes nessa vida. Ele veio me velar e abraçar como sempre o fez, eternizando Amor.

Agora levo seus olhos nos meus, painho. Por hora, encharcados nesse inverno na alma. Obrigada por cada apoio, cada bilhetinho, cada carta, todo o orgulho, todo o Amor. Os elos desse Amor só se fortalecerão, e a saudade que fica é saudade boa, que só quem foi e fez feliz pode deixar. Que o Divino te proteja e te ilumine. Até o reencontro…

Sua filha,
Laurita.
Abril/2013

Anúncios

Read Full Post »

%d blogueiros gostam disto: