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Seu cansaço

para Luciano Freitas, pelas palavras caras.


Não demora, já fica aflita com a desconhecida solidão de agora e depois. Mas só quando pensa. Segundos inteiram horas lentamente, e cada dia que consegue terminar é vitória. Seu corpo cansado não respira nem aspira como antes, mas acha que não envelheceu para aqueles sonhos e fantasias erguidos a duras e sensíveis penas. Definitivamente, não quer outra pessoa, se quer de volta à vida.

Que caminhos tortos são estes que lutas de anos somadas a um Amor doente levam as pessoas, não é? Como se valor algum tivesse a auto-lapidação durante tempos e tempos em busca de coisa boa pras ações e pro espírito. Sobrepõem-se nas pessoas somente as coisas mais primárias, primitivas, instintivas e mais cruas: reatividade, insultos, medo, falta de próprio amor. A natureza poética e melancólica tende a aguçar a dor insana de negar a si mesmo e acabar sendo o que lutou-se toda uma vida para não se ser, não se ter, não viver.

Há um desejo de compreensão que, graças aos deuses, faz surgir uma palavra íntima e esclarecedora posta em papel, e ajuda a tirar o foco do que dói e buscar beleza no que se diz. Teria sido isso o que fez poetas resistirem aos dias, tomados de emoções nuas tempos afora?

Impacto ela sentiu quando um poeta disse que a Arte procura verdade e beleza. Que grande poeta! Que grande motivo, razão buscada incessantemente nos passos pra mais perto do sentimento e sua expressão! Como fosse uma dor que lateja enquanto insana, sabe? Que quando se descobre sua verdade e a beleza de dizê-la, ela vira só um verso tristemente belo, lindamente saudoso, nostalgicamente doloroso.

Tem alívio maior pra uma alma sensível que saber ser compreendida, ouvir música que canta sua dor, ler poesia que fielmente lhe descreve, pintura que lhe retrata? Imagine você mesmo conseguir se descrever! É muito mágico o momento de desvendar emoções cruas. Por isso que, essencialmente, qualquer um pode ser poeta.

Às vezes, ela ficava dali querendo transformar dor em arte, mas andava com algo dentro de si e fora de si que não conhecia palavra que dissesse, chegava perto de cansaço, era maior, mas sem um fim que seus sentidos óbvios pudessem revelar.

Perguntaram-lhe:

– O que você vai fazer de volta a sua terra?

A resposta foi instintiva:

– Resistir.

Por enquanto não conseguia querer nada mais imediatamente que isso.

Disseram pra ela não construir altar pra tristeza, pra não deixar a dor vampira sugar mais, lembrar de quando a dor era apenas sombra de pensamento vago, quando a pulsão de lutar e viver era clara. Que a força está dentro, mas se sem forças para reacender as próprias forças, não custa buscar um pouco fora,  na fé ou nos amigos… mas dali só vem energia para reacender…

“A vida se dobra na vontade de quem quer continuar.”

“É um ‘vou conseguir’ porque eu quero… e porque eu mereço…”

Às vezes ela supõe que sua mente consiga, mas não sabe do seu corpo surrado de anos dos próprios açoites e maus tratos. Tudo em sua carne dói, vez ou outra acha que vai cessar. Seria alívio ou sofrimento? Tomara que alívio.

Laurita Dias

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