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vanusasantosflores

 

Ouvindo bastante de ontem pra hoje o disco Vanusa Santos Flores, produzido por Zeca Baleiro, que fez a cantora Vanusa voltar a gravar depois de 20 anos, depois de uma fase funda de depressão. Que disco forte. Agora, mais ainda, tô entendendo a força das palavras de um artigo publicado no Estadão em outubro passado e que me tocou profundamente. É tudo que tá dito ali. Ofereço e indico às amigas e amigos a leitura e, em seguida, a audição do disco. É um mergulho nas forças e fragilidades de uma mulher que respira, agora, na superfície outra vez.

“Alguns discos são apenas discos, outros são vitórias.”

Laurita.

Link para o artigo:
http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,vanusa–depois-de-20-anos–lanca-disco-produzido-por-zeca-baleiro-,1777304

 

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Era inverno na alma. Fazia o percurso João Pessoa/Monte Horebe quando o 19 de março estava prestes a se anunciar pela madrugada longa, horas difíceis, caminho do litoral ao sertão para as despedidas do meu pai. O Divino o havia chamado, deu-lhe uma morte leve e nos agraciou com uma linda despedida. Mesmo assim, o céu derramava as águas que talvez eu precisasse chorar para merecer alívio. Também me recordara a tradição popular, e eu pensava na felicidade sertaneja com o bom inverno garantido pela chuva no dia de São José. Disse um amigo que, seguramente, ao chegar ao andar de cima, o Dr. Chico Dias convocou assembleia e, com a maestria na arte da fala que sempre o diferenciou, conseguiu convencer as divindades a abrir as comportas do céu e contemplar o sertão com abençoadas chuvas.

A corrente líquida dos céus ao chão avivava esperança de bom inverno. A corrente líquida que até hoje divide semblante, diz de almas encharcadas de saudade, aquela pelo Amor que fica, egoísta ainda pela falta da matéria. Mas o luto e a tristeza parecem ter propósitos, e a gente vai atravessando o sentimento em busca de equilíbrio para o espírito, na odisseia pelos mapas interiores. E por mais palavras que nos digam, nenhuma, nem todas, dão conta de aplacar a tristeza que vez ou outra nos arranca lágrimas, mesmo percebendo quão generosa foi a espiritualidade com o tão animado poeta, o boêmio, orgulho para sua terra, homem transparente e de caráter, que há pouco inventara mais um mote para suas poesias: “o martelo da morte é tão pesado, que a pedreira da vida não aguenta”. Frase de efeito, por quem escolheu levar a vida feito balanço de cadeira na calçada em fim de tarde: embalo vagaroso pra combinar com a tranquilidade da vida na serra do Horebe, sem ambição que lhe tirasse sossego, mas na retidão de caráter que lhe punha inteiro na vida e na labuta.

Dr. Dias, Chico de Joca, meu Painho, foi um sujeito do bem. Boa conversa, era dele que vinham os mais belos e motivadores discursos. E eu sei decoradas várias histórias, de poetas, de nossa família, da fantasia de seus amores platônicos, de juventudes, de aperreios, dos tempos de delegado, de advogado… Passei muitos anos com mania de ler dicionário, porque, quando menina, vivia no pé dele, que falava difícil com os amigos e eu, pra entender das coisas que ele dizia, decorava as palavras pra ver o significado no dicionário depois. Assim seguia no rastro dos sinônimos, descobrindo os sentidos da fala do meu pai. Foi ele que, além de medida de Amor e gentileza pra estar no mundo, me despertou a paixão pela palavra e pela poesia.

Ele sempre será meu grande amigo, minha inspiração, minha saudade feliz, minha saudade doída, minha gratidão, meu “eu te amo” todo telefonema, meus dedos das mãos iguaizinhos, a gentileza de nunca me deixar abrir a porta do carro, a caligrafia impecável, os comentários gentis nas fotos de internet, o pedido pra eu permanecer junto quando lhe faltavam forças. Tem também aquele lodo suave dos olhos, os olhos verdes, verdidos de esperança nos dias que sempre desejamos melhores..

Fomos e somos extensão um do outro, eu sei. E só tenho que agradecer o privilégio de tê-lo como pai nessa existência, por trazer no meu nome o nome de sua mãe, minha Vó Laurita. Agradecer o presente de estar ao seu lado até os últimos instantes nessa vida. Ele veio me velar e abraçar como sempre o fez, eternizando Amor.

Agora levo seus olhos nos meus, painho. Por hora, encharcados nesse inverno na alma. Obrigada por cada apoio, cada bilhetinho, cada carta, todo o orgulho, todo o Amor. Os elos desse Amor só se fortalecerão, e a saudade que fica é saudade boa, que só quem foi e fez feliz pode deixar. Que o Divino te proteja e te ilumine. Até o reencontro…

Sua filha,
Laurita.
Abril/2013

caminhante

caminhante


Tempo se assenta, ensinando a respirar melhor sem pressa, sem guerrilha pela sobrevida. Penso nesses dias melhores: coragem e ânimo pra chamar ao agora o que foi ficando pra depois – silêncios da Vida -, enquanto leio essa lindeza de Rosa:

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“O senhor sabe o que silêncio é? É a gente mesmo, demais. Vivendo se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas. A gente sabe mais, de um homem, é o que ele esconde. A gente só sabe bem aquilo que não entende. Amor é a gente querendo achar o que é da gente.”

(João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas)

sinal das águas

invernada

Acordar com cheiro de chuva na terra molhada. Corri pra varanda. Antes das 5 e o dia claro. Despertei pensando estar no sertão em fim de invernada. De pé espiando o mundo e pensando em tanta estrada pra chegar até aqui… lembrança que também reforça o que sou, quem sou, as escolhas que me botaram na interessância do caminho, com gente tão especial junto, partindo da aguda escassez de possibilidades. A chuva fugaz foi simbora, mas me deixou aquele sinal das águas que vêm pra limpar e renovar. E como sertaneja, diante do mundo verdido e da natureza mais viva falando por passarim, tenho no meu coração muita gratidão pelos ciclos da Vida, pelos tempos áridos que forjam nossa resistência e resiliência, pelos sinais do Universo no tempo preciso. Daqui espio as flores. Muitas. É tempo delas. Essa lágrima é pra regar. Feliz.

tropicália lixo lógico

Compartilho com as pessoas que se interessam por Tom Zé dois registros incríveis do Programa Ensaio, da TV Cultura. O primeiro, de 25 anos atrás. Ambos foram determinantes pra desatar os nós conceituais na minha dissertação do mestrado. Meu trabalho: “Desalinho à norma: um estudo de caso sobre marcas de oralidade em produções textuais na EJA“.

Pode parecer distante, mas o olhar para a riqueza das tradições orais presentes no Recôncavo Baiano, na Irará de Tom Zé, na minha Monte Horebe e no meu alto sertão paraibano, foi a condição para estar no universo acadêmico e, baseada em vivências, questionar o cartesiano. Inclusive o cartesiano acadêmico ao qual jamais me ocorrera ser parte dele ou ele de mim. O argumento só ganhou força porque baseado em muito da minha identidade e, sobretudo, na identidade de minhas alunas e alunos da Educação de Jovens e Adultos, que têm uma forma outra de pensar e conceber conhecimento que não a aristotélica: “- Seu Antônio, quanto mede essa corda? – É meu tamanho mais duas braça”. Conhecimento genuíno desalinhado à norma, que não cabe na escola, que apenas vai se acomodando em margens sociais.

E pra falar só do povo do nosso terreiro paraibano que ouço sempre (sabendo que já já vou lembrar de um monte que não mencionei aqui), vejo essas heranças de nossa gente mais gente na música da Cabruêra, do Tocaia da Paraíba, de Escurinho, Chico César, Totonho, de Seu Pereira e Coletivo 401, Chico Correa&Eletronic Band, na Tribo Éthnos! E tantos e tantos. Faço questão de ter sempre essa arte em minhas aulas. E agrada! Um genuíno profundo vivíssimo presente também em Manoel de Barros e latente em Guimarães Rosa, ambos de minha cabeceira. A impressão que tenho é que vamos encontrando os fios condutores que botam muita gente na afinação e ousadia de peitar o estabelecido. E assim seguimos celebrando os Encontros na estrada…

Nessa estrada de bons Encontros para meus sentidos, Tom Zé pariu o “Tropicália Lixo Lógico” em 2012, pra amarrar os pensamentos sugeridos em registros até anteriores a esse vídeo do ano de 1990, compartilhado aqui. Veio mesmo bagunçar as lógicas estabelecidas, trazendo vivências, identidades e raízes preceptoras babás profundas, para contrapor consensos e traçar um desenho também profundo do Tropicalismo (sugiro ver o encarte do disco que explica tudo de um jeito bem didático!). Uma riqueza os suportes de sua expressão, da representação de seu pensamento e de suas experiências de conhecimento. Isso tudo é muito nosso. Sempre naquele limiar entre o que é música ou ruído, uma genialidade meio inalcançável para a liquidez desses tempos.

Na escola, o desafio é acolher a identidade da(o) estudante, expressa em sua fala e refletida na escrita, sem deixá-la à margem do correto, mas como uma expressão outra do conhecimento, para além de padrões gramaticais. Assim o Tropicalismo fez, num movimento meio às avessas, quando diante do novo e cartesiano. Esse cartesiano, também representado por guitarras elétricas e conjugado junto das expressões e vivências sessentistas todas, foram gatilhos disparadores para trazer à tona a informação ancestral, seus preceptores babás e a referência da tradição oral analfabeta de Aristóteles, antes das crianças terem contato com o cartesiano escolar. A equação disso tudo é deleite para os sentidos: ouvidos, retinas, aroma, arrepio, apetite! Na escola, é olhar para os/as estudantes fora da sombra do fracasso escolar, mas podendo conjugar, também juntos, seus saberes narrativos e o novo cartesiano, quando decifrar a escrita pode ter o mesmo assombro doloroso e maravilhado que o Tom Zé dos anos 90 descreve nesse vídeo aqui compartilhado. De modo que vejo riqueza e genialidade em minhas salas de aula, onde é mais lógico perceber ruído.

Bem, é assunto demais. Sugiro os vídeos completos. E pra ver/ouvir a profundeza da fala de Tom Zé sobre as culturas orais e o jeito de aprender (Freireano!) passe aí pros 28min50seg no primeiro vídeo, de 1990.

No segundo vídeo mais um registro precioso e imperdível pra decifrar os caminhos interiores de sua arte. Taí ele próprio explicando com muita profundidade o disco e, consequentemente, a Tropicália.

Programa Ensaio | Tom Zé | 1990

Programa Ensaio | Tom Zé | 10/08/2013

Tom Zé

tom zé

Hoje é aniversário desse baiano de Irará que me inspira pra Vida! 79 anos. Vanguarda nos 60′ e vanguarda hoje. O Não-padrão. Conexão com a gente brasilis e sua unimultiplicidade. Desalinho. Assimetria. Antropofagia de faminto. Mas Tom Zé já era Tom Zé antes da Tropicália… e continua sendo. Quem mais? Faz tempo que o estudo, ouço, degusto e sempre fico mais de cara com o nó de cada ponto que ele dá. Que maravilha é estar nesse tempo e no mesmo mundo que ele, seguir nas pistas da razão de ser de sua arte. A imensidão desse Zé jamais caberá em palavras, guiçá em sentidos. Vida longa ao mestre!

a serra do Horebe

Dia 5 de dezembro foi aniversário de minha amada Monte Horebe. Bem novinha, 52 é o número que conta seus anos. Quem me conhece um pouquinho de nada, já sabe o quanto a coloco nos meus mapas, onde quer que eu esteja.

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A serra do Horebe é o abraço de Soizinha.
É seus olhos não enxergarem e ela me reconhecer por esse abraço.
É a carne de sol com fritas e cerveja geladíssima lá de Almir.
É manga “diveiz” com sal e aquele pão paulista de Bedeta.
É estar em João Pessoa e fazer linha reta de frente pra trás, leste a oeste, no mapa da Paraíba, pra mostrar onde fica a terrinha.
É a “crechinha” que eu amo: um monte de criança linda que me chama de Tia Laurita e adora desabar comigo pro sítio, carro entupido de “mininu” perguntando cadê aquela música de Chico César que eu sempre ouço. (rs)
É o balanço da cadeira, fim de tarde, enquanto o sol se deita ao som de boa prosa, gente botando assunto em dia pelas calçadas.
É ter notícias de que ex-alunos da serra do Braga, de 13 anos atrás, foram na casa de mainha, dia de feira, me deixaram um abraço e mandaram lembrança.
Horebe é minha raiz Dias do Nascimento: Vô Venâncio num busto no meio da praça e as lembranças mais recentes de painho, Rodrigo, Orlando, Vô Joca e Vó Daíva, arrudiando meu juízo com um monte de saudade.
É a ida à casa dos tios pra dar a “bença” e aqueeeeleee cheiro nos primos.
É o convite recorrente a todos os meus amigos pra sentir o friozinho da serra, a vontade de levar os hermanos da Arte pra fazer um festival com um monte de oficinas por lá.
Monte Horebe é a escassez de possibilidades que, mais grave tempos atrás, me empurrou tão cedo pra beber do mundo e aguçar intuição.
Mas Monte Horebe também é apostar na juventude que se desalinha ao óbvio, ao banal e ao medíocre.
É a força de minha mãe Lindeci e a sensibilidade de meu pai Chico Dias.
A amorosidade, confiança e proteção que hoje sinto do meu irmão Franklin.
É a lembrança de meu irmão Rodrigo brincando com minha sobrinha Letícia e com Malu, sua cadela quase gente que foi morar com mainha quando ele foi morar no cosmo.

É rir sozinha lembrando das histórias engraçadas de quando painho era delegado.
É correr na casa de Valdir, difíceis tempos, pra mostrar poesia nova a ele, e viu-se verso(!), e assim manter a sanidade!
É ensaiar coreografia com Ivacarla, meninas-moças ainda, pra dançar igualzinho na próxima festa na quadra. Kkkk
É pensar em Luksfran com a certeza de que a distância separa matéria, nunca a energia das amizades verdadeiras.
É ser uma das 5 Lauritas da Família, em memória de minha vó que morreu de parto e inspirou verso bonito de meu pai: “na parede que mamãe botou cortina, uma aranha teceu e fez morada”.
O Horebe é o Sítio Pinga, onde aprendi a andar de bicicleta, dirigir e vivenciar a afetividade de ser professora/educadora aos 15 anos de idade.
O Pinga de painho de minha infância, onde chupei muita laranja, tomei muita água de coco e de onde ainda lembro o gosto dos cajus daquele pé perto da cerca, divisa com a terra de seu Onofre e seu curral.
O Pinga, onde hoje mainha recebe a mim e meus amigos com tanto Amor, cuidado e respeito ao diferente.
Horebe é meu desejo de vida mais simples, num futuro já já, fugindo do caos e cuidando de minha hortinha orgânica no terreiro de casa.
É o céu mais estrelado do mundo e o luar esplendoroso, que ocupa tanto dessas minhas memórias afetivas.
Diz meu amigo Irapuan que na serra do Horebe a gente fica mais perto de Deus.

O luar é feito esse, dessa foto linda de Wênio Pinheiro Araújo, na nossa ida pra lá na Semana Santa de 2012.

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