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luz do meu terreiro

chão do meu terreiro

Essa foto é muito simbólica. O pôr do sol é sempre de uma boniteza e melancolia imensas. Representa muito dos ciclos naturalmente se encerrando para dar lugar a transição para outro dia, outro tempo. Sempre achei que é depois dele, antes da noite chegar com suas durezas, mistérios, fugas, seduções e curas, a hora que o mundo fica com a cor mais bonita. Um ano atrás eu fiz essa foto lá no meu chão, na minha casa no Pinga que foi da minha Vó Licôr. Ainda não tinha consciência de que era tempo de ciclos se encerrarem. Até hoje corro pelos terreiros dos dias do jeitinho que Larissa e Maria Luiza correram para essa luz melancólica que aquece tanto a alma, tal qual o nascer do sol do outro dia que sempre vem. As curas, nas noites, chegam a preço de muito autoconhecimento. Preço caríssimo esse de trazer a própria pequenez à luz, olhar com honestidade para o que há de mais involuído em si e se querer pessoa melhor. Mas vi também que dessa sombra penumbrosa a gente consegue enxergar as cores todas do caminho com clareza assustadora. E é bonito demais. É chegar naqueles lugares sensíveis e perenes que nos fazem sentir as proteções, a mágica dos Encontros, o Sagrado Feminino, as razões de ser para o que há pouco não se compreendia. Às vezes um dia dura um ano. E assim vou findando transições, acertando o passo entre um flerte com a noite e a mansidão do dia que chega pela minha varanda. Aqui na rede rubra e num balanço vagaroso, vou bebendo dos sóis nesses dias que chegam no litoral e aquecem a alma tal qual o suor de Larissa e Maria Luiza, de encontro ao ocaso no terreiro meu e de vozinha lá no Pinga, na minha Serra do Horebe.

É um bom dia de gratidão! 💙

Laurita.

Transmutar

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Linda. Graúda! Ela pousou aqui do lado da escada, já faz bem muito tempo, e tá serena, como que espiando o movimento da faxina na casa, nesses tempos que em mim energias também se melhoram, se encontram, se inteiram. Penso no tempo em que naturalmente nos desvencilhamos das teias que envolvem os sentidos caros, teias que se não os sustentam, apenas prendem. Borboletas, dizem, são sinais de renovação e transformação. É tempo de ir, mas principalmente de chegar. Inaugurar lugares interiores. Aquele sonhar e escrever em letras grandes. De novo. Feliz, no sossego de quem escolhe viver sem reserva pro mundo. E se esgota. E quando revive, é com limites alargados. Espírito se forjando melhor, mas com cuidado ao outro, regra primeira. A borboleta pousou na parede da lembrança, esblumada de elegância e liberdade.

Jaguaribe Carne

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Algumas palavras, sentimentos e sensações me vieram ao juízo vendo o Jaguaribe Carne ontem. A primeira sensação foi de Privilégio. No palco um se desafiar, desconfigurar. Atemporalidade. Linhagem. Inquietação. Desapego. Resistência. Encontro. Generosidade. Ser fora da curva, não ter forma. Esse flerte com a incerteza certamente nos acessa aqueles perenes lugares criativos: as odisséias interiores. Porque sem segurança, sem cálculo, cru. Fuerza Bruta. Razão universalizante alguma. Avesso do presumido. O flertar os velhos abismos.

Quis filmar, guardar. Ensaiei. E achei incoerente manter preso a uma “forma” que eu pudesse vê-la repetida. Negaria sua própria natureza. Desisti. Já estava gravada em mim. Passar adiante, partilhar, apenas longe do cartesiano medido. Que coubesse às velhas tradições orais perpetuarem nas boas rodas de conversa de botequim. E foi esse meu quinhão àquele indizível.

Veja, aquilo era desalinho. E tenho fascínio pela palavra-forma Desalinho. Vivo fazendo exercícios para não enxergá-la. E ela me chegou inteiramente amparada, anunciada, significada, justificada naquela sonoridade, nos gestos, sentidos muitos. Mas poucas vezes vi reflexos d’alma extraindo o extremo desses sentidos. Cegando, quase. Por um triz, tudo.

Laurita.

mi corazón salvage

Aquela.
Para além de tempos, gentes, cenários, sentidos.
E só conecta com tempos, gentes, cenários e sentidos porque vive, indelével, no que sou. Me reforça, me acende. E ascende. Destemida. Minha.

Só por essa já te teria Amor infinito, Belchis. ❤
Tu é foda.

Laura.

vanusasantosflores

 

Ouvindo bastante de ontem pra hoje o disco Vanusa Santos Flores, produzido por Zeca Baleiro, que fez a cantora Vanusa voltar a gravar depois de 20 anos, depois de uma fase funda de depressão. Que disco forte. Agora, mais ainda, tô entendendo a força das palavras de um artigo publicado no Estadão em outubro passado e que me tocou profundamente. É tudo que tá dito ali. Ofereço e indico às amigas e amigos a leitura e, em seguida, a audição do disco. É um mergulho nas forças e fragilidades de uma mulher que respira, agora, na superfície outra vez.

“Alguns discos são apenas discos, outros são vitórias.”

Laurita.

Link para o artigo:
http://cultura.estadao.com.br/noticias/musica,vanusa–depois-de-20-anos–lanca-disco-produzido-por-zeca-baleiro-,1777304

 

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Era inverno na alma. Fazia o percurso João Pessoa/Monte Horebe quando o 19 de março estava prestes a se anunciar pela madrugada longa, horas difíceis, caminho do litoral ao sertão para as despedidas do meu pai. O Divino o havia chamado, deu-lhe uma morte leve e nos agraciou com uma linda despedida. Mesmo assim, o céu derramava as águas que talvez eu precisasse chorar para merecer alívio. Também me recordara a tradição popular, e eu pensava na felicidade sertaneja com o bom inverno garantido pela chuva no dia de São José. Disse um amigo que, seguramente, ao chegar ao andar de cima, o Dr. Chico Dias convocou assembleia e, com a maestria na arte da fala que sempre o diferenciou, conseguiu convencer as divindades a abrir as comportas do céu e contemplar o sertão com abençoadas chuvas.

A corrente líquida dos céus ao chão avivava esperança de bom inverno. A corrente líquida que até hoje divide semblante, diz de almas encharcadas de saudade, aquela pelo Amor que fica, egoísta ainda pela falta da matéria. Mas o luto e a tristeza parecem ter propósitos, e a gente vai atravessando o sentimento em busca de equilíbrio para o espírito, na odisseia pelos mapas interiores. E por mais palavras que nos digam, nenhuma, nem todas, dão conta de aplacar a tristeza que vez ou outra nos arranca lágrimas, mesmo percebendo quão generosa foi a espiritualidade com o tão animado poeta, o boêmio, orgulho para sua terra, homem transparente e de caráter, que há pouco inventara mais um mote para suas poesias: “o martelo da morte é tão pesado, que a pedreira da vida não aguenta”. Frase de efeito, por quem escolheu levar a vida feito balanço de cadeira na calçada em fim de tarde: embalo vagaroso pra combinar com a tranquilidade da vida na serra do Horebe, sem ambição que lhe tirasse sossego, mas na retidão de caráter que lhe punha inteiro na vida e na labuta.

Dr. Dias, Chico de Joca, meu Painho, foi um sujeito do bem. Boa conversa, era dele que vinham os mais belos e motivadores discursos. E eu sei decoradas várias histórias, de poetas, de nossa família, da fantasia de seus amores platônicos, de juventudes, de aperreios, dos tempos de delegado, de advogado… Passei muitos anos com mania de ler dicionário, porque, quando menina, vivia no pé dele, que falava difícil com os amigos e eu, pra entender das coisas que ele dizia, decorava as palavras pra ver o significado no dicionário depois. Assim seguia no rastro dos sinônimos, descobrindo os sentidos da fala do meu pai. Foi ele que, além de medida de Amor e gentileza pra estar no mundo, me despertou a paixão pela palavra e pela poesia.

Ele sempre será meu grande amigo, minha inspiração, minha saudade feliz, minha saudade doída, minha gratidão, meu “eu te amo” todo telefonema, meus dedos das mãos iguaizinhos, a gentileza de nunca me deixar abrir a porta do carro, a caligrafia impecável, os comentários gentis nas fotos de internet, o pedido pra eu permanecer junto quando lhe faltavam forças. Tem também aquele lodo suave dos olhos, os olhos verdes, verdidos de esperança nos dias que sempre desejamos melhores..

Fomos e somos extensão um do outro, eu sei. E só tenho que agradecer o privilégio de tê-lo como pai nessa existência, por trazer no meu nome o nome de sua mãe, minha Vó Laurita. Agradecer o presente de estar ao seu lado até os últimos instantes nessa vida. Ele veio me velar e abraçar como sempre o fez, eternizando Amor.

Agora levo seus olhos nos meus, painho. Por hora, encharcados nesse inverno na alma. Obrigada por cada apoio, cada bilhetinho, cada carta, todo o orgulho, todo o Amor. Os elos desse Amor só se fortalecerão, e a saudade que fica é saudade boa, que só quem foi e fez feliz pode deixar. Que o Divino te proteja e te ilumine. Até o reencontro…

Sua filha,
Laurita.
Abril/2013

caminhante

caminhante


Tempo se assenta, ensinando a respirar melhor sem pressa, sem guerrilha pela sobrevida. Penso nesses dias melhores: coragem e ânimo pra chamar ao agora o que foi ficando pra depois – silêncios da Vida -, enquanto leio essa lindeza de Rosa:

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“O senhor sabe o que silêncio é? É a gente mesmo, demais. Vivendo se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas. A gente sabe mais, de um homem, é o que ele esconde. A gente só sabe bem aquilo que não entende. Amor é a gente querendo achar o que é da gente.”

(João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas)

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