Roda, viva?

Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu…

A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá …

A gente vai contra a corrente

Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá…

A roda da saia mulata

Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou…

A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá…

O samba, a viola, a roseira

Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou…

No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá …

Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração…

(Chico Buarque)

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tão singular a vi plural

Para Denise

Não tem como falar dela sem pensar em autenticidade.
E pra desejar felicidade é preciso rogar a todos os deuses do Olimpo que a conservem nessa singularidade, mas também na pluralidade do seu espírito em vôo livre!
Mas à descoberta sucede a dúvida: A singularidade comportaria uma pessoa tão múltipla, tão plural?
E clara é a certeza de que a arte disso que intitulamos vida se assenta também nas (re)descobertas e (re)invenções que partem de dentro pra fora.
Os reles mortais que paguem pela petulância de tentar entender e/ou explicar o que nem carece ser dito, nem entendido, às vezes.
Que são as palavras frente aos sentidos?

Laurita

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Sonhei e fui, sinais de sim,
Amor sem fim, céu de capim,
E eu olhando a vida olhar pra mim.

Sonhei e fui, mar de cristal,
Sol, água e sal, meu ancestral,
E eu tão singular me vi plural.

(Lenine)

É de mágica…

É feliz.

Viva enquanto sombras fluírem como beleza.

Das que se pode saber.

Dizer.

lágrima

É De Lágrima

que faço o mar pra navegar
Vamo lá!
Eu não vi, não, final
Sei que o daqui
teimou de vir, tenaz assim
feito passarim

É de mágica
que eu dobro a vida em flor
Assim!
E ao senhor de iludir
manda avisar, que esse daqui
tem muito mais amor pra dar

(Marcelo Camelo)

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para Liana

Rima


Amores, Amor, AmA.
Levaria vidas pra dizer inteiro.
É da nobreza da alma.
Ela é de mim.
Minha é dela.
E viu-se-verso.

(Laurita Dias)

Sutilmente.

Estava de pés frios. Daquele jeito que ela passava horas antes de sair de casa imaginando um jeito de não sentir. Cinema legal era garantido com meias na bolsa, guardadas estrategicamente para evitar os ares gélidos diante da telona. Tudo enquadrado no campo de segurança necessário àquele seu universo, nos meio-termos e meio-tons – e por vezes meias-palavras – que asseguravam conforto e certa segurança no dia após dia. Pensava sempre nessa necessidade de harmonia que traduzia-se inconscientemente nas cores e falas que usava, sempre ton sur ton, como se fossem seu quinhão para dar condições, mesmo que meramente estéticas, para que certa paz se chegasse.

Era curioso notar seu interesse por coisas descoradas, como aquele moço que avistava todos os dias na ida ao trabalho, sentado no batente da casa de meio-portão com pijama cinza e olhos sempre longínquos. Lhe eram fascinantes também as fumaças do cigarro dançando lindamente e esvaindo-se ali, à meia-luz, diante dos seus incrédulos olhos.

Conhecera certa vez uma Laura, Lispector a dizia com maestria, e tamanha era a exatidão dos seus reflexos naquelas linhas, que ela sentia-se a própria criatura contada, escrava daquelas páginas em sequência. Coisa louca se passava naquela sua mente que escolhia figuras pálidas para nelas reconhecer-se. Parecia até meio suspeito pensar assim porque quando saía para dançar, era um embalo que a levava nem lá nem cá, igualzinho àquele equilíbrio que ensaiava no meio-fio da rua, quando menina. Era seu jeito de se proteger do frio, saltando entre calçadas e bancos da praça. Aquecia-se com o próprio suor.

Agora, quando em chamas, do alto do muro do cansaço de suas expressões discretas e maduras, nem se dá o trabalho de reclamar da falta daquele split que garantiria ares mais frescos. O ventilador lhe é extremamente suficiente nas noites de calor, já que na falta dos fins acaba se valendo dos meios. Esses sim, nunca findam.

Laurita Dias

(In:) Fado

Isso

de não saber sensações

Engano que se esvai

e se retoma

Que se figura

e se resvala

e arde e destrói

e pulsa e lanha

Clama em prece

que se recue.

(Laurita Dias)

Eis que se apresenta…

Ela sentia um alívio na alma quando pensava no agora. Sabia que as texturas do tempo haviam envelhecido alguns de seus sorrisos, mas que também fizeram maturar na adega do seu coração os melhores gostos e sentimentos, os profundos desejos de mudança num caos social de tantas margens…
Com os amigos saudou muitas luas e correu pra languidez das noites vazias. Indizíveis frente à cadência branda dos desvendamentos. Assim aprendeu a se enxergar como mulher faminta e feroz a transpassar muros e espaços, como que a saborear interminavelmente da reação ao medíocre.
Ela pensa como poeta e sente desejo de infinito. Aprecia sensações de solidão e reconhece beleza indescritível na tristeza. Anda rabiscando uns versos e é apaixonada por música. Palavras, timbres e harmonias sempre fizeram-na perceber-se movida por encantos e aclamada por deuses, na equação da inquietude de quem consegue sentir o que fala ao espírito, seja letra ou melodia…

Suas palavras postas em papel caminham para o insólito e sombrio, e por vezes ela recusa o lirismo que não é libertação, como ouvira certa vez de Bandeira.
Seus passos seguem descalços, desarmados a sentir a natura e o chão do qual é parte. Odeia forçar afinidades e tem um tom que vibra em notas inalcançáveis para a maioria das gentes. Mas haveria de ser assim… é o seu próprio preço para que estampado na cara, sorriso possa acolher e acreditar em pessoas e, a um só tempo, dentes se arreganhem para as impossibilidades, vontade de querer-bem ultrapasse políticas hipócritas, e para que das lutas não se traga cansaço, mas a dignidade de poder construir pelos sonhos, pela crença numa força tal que rege vidas e universo. Ela pensa que seja o Amor. É romântica. Esse é o seu caminho, sua natureza. São seus quereres.

Laurita Dias