“De todo modo resta o tomara-que-seja; resta o que a gente deseja, como diz o amigo Guima. E a esperança é uma mulher tão à mão, que é até ingratidão a gente não dar-lhe em cima. Por isso, amigos, que este ano recém-nato, ao contrário do transacto, lhes chegue de fraldas limpas; e vocês tenham um milhão de coisas boas e possam ver suas pessoas num espelho mais bonito. (…) Pois a verdade é que tudo se renova: bossa velha fica nova, o que eu acho muito bem. Só não renova quem já está com o pé na cova, quem não cria e não desova, quem não gosta de ninguém.”
Beladormeceu o sentido
Pus na parede um prego a mais.
Andava tudo árido, pessoas e paisagens. Corrente líquida só dividia semblante, e a primavera fez-se longe da calidez dos sertões, mas perto daquele cheiro febril que desvendaria caminho.
Gracias, 1N1.
Laurita.
A Adormecida
Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimigaDorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.(Paul Valéry)
Amélie
Deuses
Para Irapuanzinho.
Quem puder, ouça no máximo e se imagine vento na face, cabelo esvoaçando, lua cheia incandescendo pela janela do carro no céu de BSB, rumo ao Acarajé de Iaiá! 77 nomes de Deus e muitos vivas aos Deuses dos Encontros que botam gente tão especial perto de mim!
Laurita.
12 de junho, na morada nova
Na morada nova, o olhar se assenta lânguido pelos azulejos claros, enquanto pregos procuram paredes, querendo provocar corpo e identidade.
Rodapé florido de livros e discos, disso que infinitamente alimenta espíritos. Tapete é retalho de lençol: aquele, das camas de outrora. Presente-baú divide o espaço pequeno de abrigar inquietude e sossego a um só tempo, de um gole, Só. Silêncio respeitoso pra ouvir Belchior e Baleiro dizerem de corações selvagens, disritmias, noites e quintais.
Hoje, na morada minha, amor que ja se erguia imenso (e egoísta), agora mais feliz pela palavra de um poeta que pré-sente vida n’almalheia. Imensa.
Gracias, Sandoval Fagundes.
Laurita Dias
Vigília
a insônia sabatina a noite
sobre a solidão dos não morados
pergunta-lhes sobre o sentido da vida
exposto no tapete azul do silêncio
Sandoval Fagundes, sábado, 11 de junho de 2011
23:58:54
Cadência
Havia canções que lhe cantavam e seduziam feito um olhar de mistério. Sons por acaso ou por beleza? Dos olhos cintilantes transbordava uma emoção de ver e ouvir quem Sente a Arte. O dizer a que veio. O vir. A cadência do contar e cantar intensidades que, ao seu Ver, quase ninguém faz como esta Diva, proferindo estas benditas palavras.
Laurita
Samba da Bênção
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração.
(Vinicius de Moraes e Baden Powell)
Seu cansaço
para Luciano Freitas, pelas palavras caras.
Não demora, já fica aflita com a desconhecida solidão de agora e depois. Mas só quando pensa. Segundos inteiram horas lentamente, e cada dia que consegue terminar é vitória. Seu corpo cansado não respira nem aspira como antes, mas acha que não envelheceu para aqueles sonhos e fantasias erguidos a duras e sensíveis penas. Definitivamente, não quer outra pessoa, se quer de volta à vida.
Que caminhos tortos são estes que lutas de anos somadas a um Amor doente levam as pessoas, não é? Como se valor algum tivesse a auto-lapidação durante tempos e tempos em busca de coisa boa pras ações e pro espírito. Sobrepõem-se nas pessoas somente as coisas mais primárias, primitivas, instintivas e mais cruas: reatividade, insultos, medo, falta de próprio amor. A natureza poética e melancólica tende a aguçar a dor insana de negar a si próprio e acabar sendo o que lutou-se toda uma vida para não se ser, não se ter, não viver.
Há um desejo de compreensão que, graças aos deuses, faz surgir uma palavra íntima e esclarecedora posta em papel, e ajuda a tirar o foco do que dói e buscar beleza no que se diz. Teria sido isso o que fez poetas resistirem aos dias, tomados de emoções nuas tempos afora?
Impacto ela sentiu quando um poeta disse que a Arte procura verdade e beleza. Que grande poeta! Que grande motivo, razão buscada incessantemente nos passos pra mais perto do sentimento e sua expressão! Como fosse uma dor que lateja enquanto insana, sabe? Que quando se descobre sua verdade e a beleza de dizê-la, ela vira só um verso tristemente belo, lindamente saudoso, nostalgicamente doloroso.
Tem alívio maior pra uma alma sensível que saber ser compreendida, ouvir música que canta sua dor, ler poesia que fielmente lhe descreve, pintura que lhe retrata? Imagine você mesmo conseguir se descrever! É muito mágico o momento de desvendar emoções cruas. Por isso que, essencialmente, qualquer um pode ser poeta.
Às vezes, ela ficava dali querendo transformar dor em arte, mas andava com algo dentro de si e fora de si que não conhecia palavra que dissesse, chegava perto de cansaço, era maior, mas sem um fim que seus sentidos óbvios pudessem revelar.
Perguntaram-lhe:
- O que você vai fazer de volta a sua terra?
A resposta foi instintiva:
- Resistir.
Por enquanto não conseguia querer nada mais imediatamente que isso.
Disseram pra ela não construir altar pra tristeza, pra não deixar a dor vampira sugar mais, lembrar de quando a dor era apenas sombra de pensamento vago, quando a pulsão de lutar e viver era clara. Que a força está dentro, mas se sem forças para reacender as próprias forças, não custa buscar um pouco fora, na fé ou nos amigos… mas dali só vem energia para reacender…
“A vida se dobra na vontade de quem quer continuar.”
“…é um ‘Vou conseguir’ porque eu quero… e porque eu mereço.”
Às vezes ela supõe que sua mente consiga, mas não sabe do seu corpo surrado de anos dos próprios açoites e maus tratos. Tudo em sua carne dói, vez ou outra acha que vai cessar. Seria alívio ou sofrimento? Tomara que quando for, que seja alívio.
Laurita Dias
Ainda…
Foi um rompimento na impossibilidade. As fumaças de um cigarro dançavam no negrume daquela noite, piedosa apenas pela presença da Lua Plena. 
Ele olhava para esse tudo dela que podia avistar e que o vento fazia esvair-se em segundos. Caminhava. Havia um muro, uma porta e uma grade afirmando o comedimento que nem se sabia mais. Brotaram de suas penas, linhas exaustas de um Amor pedindo abrigo, querendo respirar. Ainda.
Faltou luz, mas já era dia. Disseram. Vagou até fazer Sol, mas se queria Lua. Luta-se. Cansados ambos, ofegantes ambos e ambos a não acreditarem nas causas que defendiam. Carne e feridas à mostra contra tudo do Amor que ao outro se dedicava. Imploraram trégua, já que os vinhos mais baratos lhes foram arrancados. As almas foram laceradas com todo o arsenal que a ausência oferece aos combatentes feitos de fogo e dor, insistindo no “não” brandido a braço de ferro, cortante e penetrante.
Depois de tudo acabado, vencedores de si mesmos, de joelhos, receberam o prêmio final motivo de tão renhido duelo: a certeza que podiam ir-se e a profunda tristeza que cabe àqueles que conhecem o alto preço de suas conquistas.
Tempos vão e são, e chega para um deles a vista vagarosa de um casco sujo sob velas ensorbecentes, antes amarrado ao cais do Amar. Piedade das águas que correm sob inteiro efeito de despedidas, levando para muito, mas muito longe dos encantos, aquela vontade de Primavera que, em delírios, um dia ousaram sonhar…
Laurita Dias
Marinheiro Triste
Por Jaya Magalhães
“Marinheiro triste
Que voltas para bordo
Que pensamentos são
Esses que te ocupam?”(Marinheiro Triste – Manuel Bandeira)
E nela moram interrogações. Os assombros mesmos, de anos atrás. Pela janela escancarada, quem passa vê. A moça de face apoiada em mãos, e aquele olhar que não enxerga. Foi ele quem partiu, outra vez. E o litro de aguardente que ficou na mesa ao lado bem serviam para lembrá-la de como o amor do que se foi a esquentava.
Marinheiro, marinheiro! Envolto em tuas águas, sente-se no comando do mundo, bem sei. Carrega uma lista de corações partidos a cada canto por onde passa. A cada porto, escreve um desamor. Os olhos que te retratam, verdes, jabuticabas, azuis, castanhos, de mel, do-Pará. Cada um, uma festa que já foi. E depois as águas. E nada. Solidão para os teus olhos tristes, marinheiro. Coração nenhum ao lado teu. Uma pena. Mesmo? Já não sei mais.
Observo-te em tom de pesquisa, há muito. Lembro os dias onde o mundo ainda era pouco. De quando você se fez homem do mar. Teu lenço, chapéu, farda, botavam doidas as mocinhas todas. Soubesse aproveitar os bons frutos, hoje teria uma árvore bem cuidada. Mas quem quer saber de árvore quando nunca se ancora? Você aproveita das estações o que de melhor elas te oferecem.
Teu navio, que nome ele tem, marinheiro? Nome de amor, sofreguidão, azedume? Pelo casco sujo, acredito em desimportância. Se houve batismo, um dia, já não se sabe das memórias. É a água que leva e a onda que traz de volta. Por isso você retorna. Bebida e charuto. Posa em desafeto, e depois parte em tropeços. Deixa aqui um verso, por hoje. Poema para a donzela. Perfume para as prostitutas dos teus portos de escala.
Espia São Jorge, enquanto a lua se levanta. Já notou do teu navio, quando os ventos te levam os contos daqui, como é bonito o mar grávido em luar? Sentiu-se filho? Bem sei que você se torna céu azul, marujo. A moça carrega pintura tua no altar. Pobre da moça.
Esse batom barato borrando teus lábios, de que passagem grudou? Tão encarnado quanto as demais paixões profanas. Sei que hoje não é mais dado a confetes. A tristeza bem desenhada nos teus olhos escuros chega a ser divina em sua verdade. É a tristeza envelopada em si. Carta escrita por você, marinheiro. Te alcançaria em qualquer mar.
Marujo ia no olho verde da moça, em doce navegar. Moça no coração do mar. Ele é filho. Saltariam juntos apenas quando a garrafa de amor escrito fosse aberta. Descoberta. Tinha dos dois, nalgum lugar. Vidro frágil. Era a promessa. O desembarcar em cada porto era o viver sendo entregue. Missão. A moça era do marinheiro. Ele, dela. E sempre foi assim. Necessário transverberar?
Marinheiro viu coração em garrafa. Infinitude nadava. Afogou-se. Muito (a)mar.
Foi embora todo aquele há de ser. Hoje, água e sal moram nos olhos da moça, junto com as interrogações. A cada lua, face apoiada em mãos, e o não enxergar. Quem passa vê, pela janela escancarada.
Amar. Há mar. Amor perdido. Gaivota. Ela virou ilha. Ele, céu – seu.
É místico
para Thalyta
Uma vez ganhei dela um abraço que me levou pra mais perto de mim. Sentiu, falou e pensou igualzinho. Dissemos de cansaços, vínculos, identidades. De cores bonitas que pessoas pintam nos dias da gente, de coisas que vão embora como o vento que passa. E fica.
Às vezes é preciso fechar a janela e chamar o vento só quando a gente quer, né? Eu não sei de ventos, mas na guerrilha pra me manter sã, ela deixou com motivo um dia meu difícil de resistir, feito brisa na tormenta. Eu deixo pra ela palavra nua, porque a gente gosta sempre de dizer, e ela é desse povo que ta sempre sem reserva pro mundo…
É isso que dá cor à vida. Ela disse que é místico. E a gente sente.
Laurita
Foi pra ela que Fernando Pessoa falou hoje:
Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.
Myrdynn e Ninian
Myrdynn era um filho ilegítimo de um Lord Anglo. Cresceu voltado para as coisas que não se podia ver, tocar ou ouvir. Ouvia, tocava e via o que nada disso se podia. Era uma época triste de destruição e sangue. Roma caíra, mas não o Cristianismo. A nova religião fazia correr o sangue dos tidos como ineptos e imundos adoradores dos velhos deuses que agonizavam sob a espada da nova doutrina…
Caminhando sob as chamas de um mundo que se contorcia em lenta e quase lânguida agonia, duas pessoas seguiam sozinhas entre mortos – deuses e mortais: Myrdynn e Ninian. Procuravam debaixo das cinzas, muitas vezes úmidas de lágrimas, um mundo não mais palpável, mas ainda vivo nos mistérios da morte e da natura, perdido ainda em parte entre as sombras escuras dos bosques da terra e das almas.
Deram-lhe outro nome depois de morto: para os homens modernos Myrdynn passou a se chamar Merlin, O Mago. Ninian, dela não se sabe. Talvez ainda caminhe, sozinha a cata dos seus deuses, mortos senão talvez disfarçados no vento que geme entre as folhas…
Laurita Dias
feridas e saudade
Que os deuses das feras tenham dela piedade e, lenientes, brindem-na como sempre o fizeram: com a placidez necessária ao convívio com as feridas abertas que sempre, mas sempre, demoram a fechar…
Laurita Dias
Saudade
Hoje que a saudade me apunhala o seio
E o coração me rasga atroz, imensa
Eu a bendigo da descrença em meio
Porque eu hoje só vivo da descrençaÀ noute quando em funda soledade
Minh’alma se recolhe tristemente
Para iluminar-me a alma descontente
Se acende o círio triste da saudade.E assim afeito às mágoas e ao tormento
E à dor e ao sofrimento eterno afeito
Pra dar vida à dor e ao sofrimentoDa saudade na campa enegrecida
Guardo a lembrança que me sangra o peito
Mas que no entanto me alimenta a vida.(Augusto dos Anjos. Em 1899)
.
Luto e Lisonja
Eram dias estranhos e desleais. A cama parecia ter espinhos, levando a sonos inquietos e exaustivos. A Lua era plena e inspirava sentidos, mas aqueles dias traziam consigo o cansaço de anos de guerrilha, exaustão pesando sobre os ombros. Gurgel estava a postos como sempre, com a energia que podia, amparando e direcionando sensibilidades, empoderando nas lutas, oferecendo o melhor que tinha pra que Laura Days resistisse. Ele, tão mais exausto dos dias, inda se doava sem reservas àquela sua cria igualmente cansada.
Era véspera de sua partida e saltavam do monitor de Laura as palavras de orientação e incentivo ajudando-a a desatar seus nós pessoais e os metodológicos que impediam os saltos acadêmicos. Fora palavra rara, dessas aulas que, quando em vez, ela tinha à distância. Ela guardara em A4 a preciosidade daquelas linhas, para delas beber quando lhe ocorressem inseguranças. Fizeram um pacto. Idéias dela postas no papel chegariam para uma revisão dele. Dia seguinte estariam na virtualidade combinada para darem corpo e vida a um gancho Tropicalista. O assunto do empenho dele junto dela nos mares de Tom Zé e da Tropicália haviam tomado todo o seu dia, seu pensamento, suas conversas com todas as pessoas. E ela que tinha de aprontar idéias para enviar pra ele, passou o dia numa espécie de angústia que a imobilizou, já se preparando para a fúria dele quando confessasse que nada produzira. No dia seguinte ele não veio e ela sentiu estranheza.
Ele era daqueles gentleman’s que palavra dada, podia ser marcada a ferro. Para ela mais que isso: era um daqueles heróis que ela ouvia sua música, lia seus livros, assistia na telona, acompanhava a vida. Mais ainda: podia desfrutar de sua profunda amizade partilhando tudo que falasse mais alto ao espírito, fossem música e poesia, dramas familiares ou com a saúde, aventuras e desventuras passionais – dos encorajamentos aos esporros mais cruéis. Partilharam suas coisas mais caras e era um privilégio recíproco que já haviam confessado, graças aos deuses (e à internet, é claro).
Raro era o dia que ela não dissesse dele, fosse falando de Música, de História, da “Educação dos Ouvidos” ou do que alicerçou posturas de competência e ética, tamanha era a referência que ele representava para Laura. Todos os amigos-irmãos dela o conheciam, alguns deles já estabeleciam contato direto com aquele Senhor das Tormentas, mesmo sem nunca o tererem avistado. Mesmo de longe, todos notavam quão especial era aquele homem dono de falas ácidas que, contra mediocridades, peitaria o mundo se precisasse.
O dia do encontro que não houve passou-se com um desconforto estranho e, naquela noite, estavam no player do carro, na volta do trabalho, canções há muito engavetadas que lhe transportavam às boas épocas da Universidade e a todo aquele Universo de início e final de curso. Pensou em ligar pra ele logo que chegasse em casa, pois também lhe ocorrera a idéia de montar um painel divisório em seu novo MiniAP com o mesmo material que ele usou pra uns quadros de sua sala. Chegou em casa, correu pro blog dele onde tinha post falando dos tais quadros e vendeu a idéia pro Marcus, seu companheiro. Faltava perguntar a Gurgel dos detalhes. Mais assunto pra próxima conversa, que já contava com as questões acadêmicas, as últimas aquisições nos sebos virtuais, a notícia do Gotan Project no quintal de casa, a mais nova piada de excelente gosto e, claro, não podia esquecer-se de passar o endereço físico para receber os arquivos de Vídeo, áudio e os e-books que prometeram trocar. Era coisa demais que sempre se acumulava pra ser dita, de modo que, concordavam, certos assuntos “só pessoalmente”.
Organizadas essas idéias em segundos, desploogou do Opinio, blog dele, quando o relógio marcava 21h30min. Muda-se a aba de navegação na net e pelas redes sociais chega em mensagens privadas a notícia que ela não conseguia repetir, mas sua palidez denunciava enquanto o peito ardia e o corpo vagarosamente deslizava da cadeira:
“Nosso querido ex-professor Paccelli acaba de falecer de infarto fulminante no hospital de Cajazeiras.”
Como poderia imaginar tamanho golpe? Que dor era aquela que fazia tremer seus músculos e banhava seu rosto numa corrente líquida cortante que jamais havia experimentado, anos de açoites lhe pesando sobre os ombros?
Fora amparada quando, em pranto silencioso e quase letal, viu, a um só tempo, a notícia da morte de Gurgel de um lado e as folhas A4 com a última conversa e suas últimas palavras escritas no dia anterior: “NÃO DEIXE MORRER, NÃO DEIXE MORRER, NÃO DEIXE MORRER A IDEIA, LAURA…”
E um pranto em desespero lhe tomou noite a dentro. Correu pra varanda e avistou uma Lua Cheia digna de despedidas, sem esperança que coubesse naquele monte de chão que separava o litoral Baiano do Sertão Paraibano, fazendo as despedidas na distância ganharem a madrugada ao som de tristuras maturadas no sumo de um coração aflito, agora enlutado também pela ausência de quem lhe dera nome e sobrenome, já que essa lúgubre sensação a vida já lhe tinha permitido.
Havia, sobretudo, uma voz que queria um grito, mas só conseguia vazio. Entendera o que era Luto. A paralisia que causava. Muitos dos seus foram às despedidas, levaram seu respeito, oração, gratidão e Amor àquele Albatroz, o Senhor das Procelas e Tormentas. Para ela não deu tempo, e o vazio dos quereres deixava Laura Days naquele estado de tanto faz que galgava íntimos esforços para não ser.
Os dias se arrastavam e a palidez das letras no monitor dava conta da falta que ela sentia de quem, além de sobrenome e nome, também lhe dera rumo e música. Ela que já partilhara infinidades de sonoridades, risos e dramas com aquele Cavaleiro Negro, agora sentia inteiramente as dores de uma fera irmã cansada de guerrilhar pela carne, há tempos imerso em belas tristezas.
Bradava aos ventos a honra que lhe fora conferida em anos de convivência com aquele lord eivado de cicatrizes, e mesmo longe daqueles bancos da Universidade e da vivência diária, sabia que ele guardava sua palavra ácida e irônica para os que lhe eram mais caros. E dessas palavras ela partilhara em vários espaços, mesmo sem diálogos, nunca importando distâncias.
Fora ele quem lhe mostrou que a dignidade humana resiste aos trovões da iniquidade e às garras febris da mediocridade, mesmo que em combates regados a ferro e fogo, com a exaustão a pesar sobre os ombros. Foi essa a maior herança que Laura recebera dele, desde a entrada no Curso de Licenciatura em História em 2003, quando Coordenador e Professor do Curso, ele adotou um bando de feras fazendo-os ler e ouvir música, se inquietar, pensar e fazer diferença no mundo. Como fez com tantos e tantos e tantos…
Mas perdoem-na os outros, Laura Days é sua cria mais orgulhosa.
Paccelli Gurgel nasceu no Rio Grande do Norte no dia 1° de Janeiro de 1964, na cidade de Mossoró. Arqueólogo Pós-Graduado na UFPE, foi Professor de História Antiga no Curso de Licenciatura Plena em História da UFCG – Campus de Cajazeiras-PB, cidade onde viveu seus últimos 20 anos. Lá também foi Cronista do Jornal Gazeta do Alto Piranhas e Membro Fundador do Arlequim Rock’n'roll Band. Era fascinado por arte, sobretudo por Literatura e Música, grandes paixões que partilhou em tudo quanto foi espaço: em Mini-Cursos sobre Rock’n'Roll na UFCG, no palco, em mesas de Bar, na varanda de casa, nos corredores da Universidade, em Listas Virtuais ou mesmo no Opinio, seu blog (linkado do lado esquerdo na sessão “Afinações”). De família pequena, dedicou os dias a cuidar dos seus entes queridíssimos. Foi um pai exemplar e uma figura humana fantástica. Perdeu a mãe, “sua espinha dorsal”, em agosto de 2009 e a Tia em Maio de 2010, restando-lhe então a filha e um irmão. Dono de uma escrita e humor ácidos, lascivos e inconfundíveis, foi responsável pela iniciação de dezenas de alunos e amigos nas leituras e nas lides Acadêmicas e da Música. Faleceu em Cajazeiras no dia 21 de Setembro de 2010, às vésperas da Primavera, numa noite de Lua Cheia.
partida
“Laura, tá difìcil? Tudo bem. Você é de ferro, e aço só se tempera na porrada mesmo…”
Paccelli Gurgelin memoriam
Viva
Para me refazer e te refazer volto a meu estado de jardim e sombra, fresca realidade. Mal existo e se existo é com delicado cuidado. Em redor da sombra faz calor de suor abundante. Estou viva. Mas sinto que ainda não alcancei os meus limites, fronteiras com o quê? Sem fronteiras, a aventura da liberdade perigosa. Mas arrisco, vivo arriscando. Estou cheia de acácias balançando amarelas, e eu que mal e mal comecei a minha jornada, começo-a com um senso de tragédia, adivinhando para que oceano perdido vão os meus passos de vida. E doidamente me apodero dos desvãos de mim, meus desvarios me sufocam de tanta beleza. Eu sou antes, eu sou quase, eu sou nunca.
(Clarice Lispector. In: Água Viva)
Poesia
Pedira licença ao passado e reverenciara os anos e os encontros. A euforia ausente dava conta da poesia desnuda, disso belo que o tempo fazia encher apenas os olhos.
Laurita
Ménina, ménina.
Não consigo ser direto…
Tenho que tabelar meus olhos
(aqui)
Antes de dizer o cambio.
Pré-ciso escrever algo que nos co-mova.
Co mo va mos ter sen ti dos juntos?
Responde tu.
Áurea óleo, finos olhos.
Olho d’água,
Não toque!,
Nunca
Vista.
Mais viva que água salgada
Viva!
Rosto rachado,
Ser tão ardente,
Mar… Cada Sol
Vente.
A sopre…
Como
Devo cantar,
Assoviar nossos acentos.
Me nina,
Ou Mé…
Deite comigo.
Quero morder a finitude deste segundo.
Re-esquecer de lembrar
Que a distancia cria…
Ser lindo!
Perfeito!
Posso tocar?(Rafael Garcia Vasconcelos)
estava amando.
Ela ficava sem entender direito aquelas coisas indizíveis que experimentava, suspirando as saudades como que descobrindo amores primeiros na inexperiência pré-adolescente.
É que eram tão sublimes as sensações quando pensava naqueles olhos que miravam-na com verdade, nas cadências de carne e espírito, em sua mão num afago doce na pele desejada. Silêncio rompido apenas pelo verbalizar do sentimento.
Estava amando. Mas aquela nobreza era digna dos olhos nos olhos, da calidez dos arrepios, do êxtase que inteirou, acrescentou, reforçou.
Esperava então outro tempo. Depois do universo favorecer encontros, do jeito que foi, ela não duvidava que esse tempo ainda pudesse haver.
Queria aquele abraço ao alcance de novo, e sabia que aquilo que sentia era o que movia músicos e poetas a dizerem as coisas mais fundas, de tão precisas.
Laurita Dias
Sonho Meu
Sonho meu, sonho meu
Vai buscar quem mora longe, sonho meu
Vai mostrar esta saudade, sonho meu
Com a sua liberdade, sonho meu
No meu céu a estrela-guia se perdeu
A madrugada fria só me traz melancolia
Sonho meuSinto o canto da noite na boca do vento
Fazer a dança das flores no meu pensamento
Traz a pureza de um samba
Sentido, marcado de mágoas de amor
Um samba que mexe o corpo da gente
E o vento vadio embalando a flor.
(Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho)
.
caos
Oração à Nossa Senhora Do Caos
Nossa Senhora do Caos
Dai-me cor e coragem
Curai-me
Dai-me cruz e corpo
Coroai-me
Dai-me fé e fome
Forçai-me
Dai-me flor e febre
Fortificai-me
Nossa Senhora do Caos
Dai-me Deus e dinheiro
Divagai-me
Dai-me dor e dúvida
Destinai-me
Dai-me ode e ócio
Ocultai-me
Dai-me o que és e esperança
Esperai-me
Nossa Senhora do Caos
Dai-me céu e sexo
Serenai-me
Dai-me sol e sombra
sondai-me
Dai-me som e sono
Silenciai-me
Dai-me são e sangue
sonhai-me
Nossa Senhora do Caos
Dai-me léu e leme
Lagrimai-me
Dai-me lã e lava
Lavai-me
Dai-me lua e luta
Livrai-me
Dai-me luz e luto
Levai-me
Nossa Senhora do Caos
Dai-me uso e útero
Unificai-me
Dai-me nó e nuvem
Nomeai-me
Dai-me voz e vento
Velai-me
Dai-me véu e visão
Visitai-me
Nossa Senhora do Caos
Dai-me jus e jogo
Julgai-me
Dai-me tez e tino
Dai-me rum e rumo
Ressuscitai-me
Dai-me ar e ânimo
Amai-me
Nossa Senhora do Caos
Dai-me mel e medo
Multiplicai-me
Dai-me mão e morte
Musicai-me
Dai-me pão e pena
Purificai-me
Dai-me paz e paciência
Perdoai-me.
(Rogério de Almeida)
años
revival
.
Eu te deixei
Você me deixou
Minha alma se foi
Se foi meu coração
Já não posso mais viver
Porque não posso te convencer
Que não te vendas Roxanne
[...]
|Le tango de Roxanne, extrait du film Moulin Rouge|


















